A mídia e a crítica

O uso da TV Educativa para mensagens críticas do governador à mídia está dando margem a polêmicas, inclusive na internet. Requião, que faz da cruzada contra os bingos uma das prioridades do seu governo, entendeu que a RPC, que reproduz a Globo no Paraná, teria se postado a favor da tavolagem por haver mostrado uma funcionária, grávida, do bingo, chorando, a lamentar que estaria perdendo o emprego com a proibição radical. A íntegra da reportagem é reproduzida, o que denota não ter havido a preferência pelos bingos, mas o governador foi mais longe fazendo uma enquete na qual pergunta se o povo está com ele ou com a jogatina, o mecanismo maniqueísta e redutor de bem e mal.
Não é a primeira vez que Requião faz uso da TV Educativa para suas ações no campo da política e da administração. No primeiro governo, às vésperas de uma eleição na mesa executiva da Câmara de Curitiba, em torno da qual tinha interesse político, um cinegrafista captou com uma câmera o movimento de vereadores, empresários, políticos à sede do Sindicato dos Transportes Coletivos da Capital, olhado como financiador de campanhas, e esse material foi enviado ao Palácio Iguaçu e usado, por vários dias à exaustão, sob o título ''Ligações perigosas'' na tevê pública. Alguns dos vereadores enfocados, alegando terem sido difamados e injuriados na reportagem, foram à Justiça e ganharam ações de indenização contra a emissora oficial.
RPC SILENCIA - No caso recente da Rede Paranaense de Comunicação, apesar de o material oficial ainda estar no ar, houve a decisão de não tomar conhecimento da postura do governador e das críticas assestadas e dar continuidade às coberturas não apenas do bingo, em seu intermitente abre-fecha, como também de todos os atos ligados ao governo e aos quais têm dado destaque conforme a importância que mereçam. O Sindicato dos Jornalistas criticou a atitude do governador e defendeu o direito de expressão da área e especialmente dos seus profissionais que no caso fizeram um trabalho equilibrado.
O governador se irritou com o fato de a reportagem mostrar a desempregada grávida. Embora haja aí o tom melodramático, que também existe na exortação ao leite-água-energia a custo zero, como ainda na alegação de que o bingo é ligado ao crime organizado, o dado emocional não ganhou evidência maior, mas uma inserção normal no contexto. Quando a Ecovia, em excelente trabalho de relações públicas e jornalismo, levou ontem à imprensa a notícia do nascimento de Letícia Vitória pela equipe de resgate da concessionária na BR-277, ganhou em imagem muitos pontos, especialmente na perspectiva humana, o que não significa dizer que o sistema de vigilância e de atendimento da empresa seja sempre perfeito ou que o pedágio se constitua na maravilha absoluta e cujas tarifas não devam baixar. Requião também ganhou pontos quando o Cardeal, dom Geraldo Magela, anatematizou o bingo. É uma posição que não leva, de forma necessária, à idéia de que o jogo é para todos um mal e coisa do capeta. A subjetividade das situações é específica, não genérica. O livre exame dos acontecimentos é imposição civilizatória que um ou outro ato de intolerância ajuda a testar, dialeticamente, para o bem de todos, tanto do governador como da RPC. Alguma, ou mais de uma, lição se extrai de um acontecimento desses.

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