Um templo ecumênico

O arquiteto Elgson Gomes ofereceu a Curitiba várias propostas para interligar praças e funções urbanas, inclusive uma voltada especificamente para o Centro Cívico. Uma das suas idéias é a de inserir um templo ecumênico naquele complexo político-administrativo.

Foi no início da década de 60 com as intervenções do Papa João XXIII, Ângelo Roncalli, cujo preceptor era o cardeal Montini, futuro Paulo VI, que mais se falou em ecumenismo. Uma das primeiras idéias de um templo ecumênico se deu num ambiente em que eu estava presente: fazíamos um Plano Diretor para o Parque Estadual de Vila Velha quando a idéia ''pintou'' e chegamos a fazer o ''lay-out'' de como seria ao lado da Lagoa Tarumã. O Nilo Previdi, pintor de linha realista, o concebeu e a definição arquitetônica ficou a cargo de Romeu Paulo da Costa. A parte jurídica era minha e o comando geral do engenheiro sanitarista Armando Júlio Bittencourt.

Aconteceu que o bispo de Ponta Grossa, Dom Geraldo Pelanda, já falecido, enviou um pedido ao Grupo de Trabalho que cuidava do assunto Vila Velha pleiteando a construção de um templo católico. Encarregado de dar parecer sobre o assunto destaquei que o Código Florestal impedia alienação, sob qualquer propósito, das chamadas ''áreas remanescentes'' que eram parques como aquele. Além disso juntei outro argumento: o Estado não era confessional e em função disso estaríamos diante de uma inconstitucionalidade, além de corrermos o risco de outras confissões religiosas se habilitarem.

Para contornar essas questões pensamos na saída ecumênica e como forma de marcar algo que poderia até timbrar o final do século. Mas o governador Ney Braga e o secretário da Agricultura, Paulo Pimentel, deram cobertura ao bispo Pelanda que, valendo-se de uma ida a Roma, conseguiu a benção do Papa na imagem de Nossa Senhora de Vila Velha. Aí uma carreata do Palácio Iguacu até Vila Velha sob o comando do governador e do bispo lançou o fundamento da igreja que está lá, ''uti possidetis, uta possideatis''. Evidentemente que não prevaleceram nem o meu parecer jurídico e muito menos a proposta ecumênica.

MUSEU GEOLÓGICO Dentre as idéias para Vila Velha havia uma interessante. Como aquele local é tido como testemunho da ''teoria da migração dos continentes'', vale dizer a terra de Gondwana, resultante da separação da Africa que era então ligada à América do Sul, demonstrada por estudos geológicos e também de caráter paleontológico, conforme relato do professor Bigarella, entendemos que, ao lado da preservação máxima do ambiente, deveríamos erigir um museu que visaria, com material expositivo moderno, cultuar a memória geológica.

Vila Velha é um relato dramático da história da natureza: foi deserto, fundo de mar, geleira conforme as evidências de estudiosos em vários períodos geológicos. Dizia-se que a rocha matriz era equivalente a material existente no deserto africano, o mesmo se dando com os fósseis lá encontrados e que o próprio diamente do Rio Tibagi teria características com os encontrados no outro lado do oceano que separou os continentes.

Hipotética ou documental, toda essa série de fatores sugeriam a criação do tal museu. Também algumas das nossas idéias, que hoje não acho tão felizes, como aquela de estabelecer a ligação por um elevador de vidro junto a uma das Furnas, foram adotadas. Estou hoje convencido que o turismo de massa é quase sempre predatório e detona em um dia o que a natureza leva milhões de anos para erigir com o simples retirar de uma orquídea da rocha de arenito.

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