LUIZ GERALDO MAZZA
O estamento e a política (I)
A Copel hoje não é nem sombra do que foi. Além do problema de quadros, com as aposentadorias dos mais qualificados, sofre de um mal brasileiro: a ocupação dos espaços pelo baixo clero. Além disso quando um estamento como a estatal é dominado pela política as razões de proselitismo se sobrepõem às de ordem técnica e doutrinária, como se viu no Instituto Nacional do Câncer minado pelos engajados e sem qualificações científicas e também na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A Copel corre novamente esse risco e quase repetindo o ocorrido sob a gestão democrática de José Richa.
Submetida a pressões ideológicas, a que não estava habituada, tal o domínio hegemônico que exercia na intimidade dos governos, houve reações internas e pelo menos seis profissionais de alto escalão foram demitidos na montagem de um ''Gulag'' interno. E o comandante da empresa, embora político, não era um jejuno em matéria técnica por seu histórico profissional. Era justamente Ari Queiroz, que deflagraria o ousado programa de eletrificação rural e que se viu impelido a remover impedimentos internos quanto às normas técnicas. Isso deu origem a um símbolo - o posteamento de madeira tratada que atingia as duas fornecedoras, titulares de um mercado cativo, do material de concreto. Pressão estabelecida, a área contratada baixou o preço para não perder a escala. No meio da onda houve as demissões.
REPETECO Na continuidade, embora um dos demandantes houvesse falecido, todos ganharam a parada na justiça trabalhista, patrocinados pelo advogado Carlos Roberto Santiago. Novamente ''razões de Estado'', diante de tantas situações equívocas, tentam prevalecer sobre o mínimo bom senso na guerra interna.
Se a área técnica da Copel, se é que realmente detém condições para tanto, é desqualificada à distância pelo governador Requião, lá do Texas, derrubando a decisão de aumentar tarifas, caso que é provocado, por hora na instância administrativa, pelos acionistas minoritários, em que medida se poderá aceitar que novamente fatores políticos se sobreponham aos de ordem técnica e legal e deflagre-se caça às bruxas? O Ministério Público já fez denúncias contra ex-dirigentes da Copel e funcionários de sua hierarquia. Se a matéria está no Judiciário fazer o uso de pressões paralelas lembra o regime militar quando pelo menos numa auditoria se dava ao acusado o direito de defesa.
MEMÓRIA A maior liderança, quase patriarcal, que a empresa deteve ao longo do tempo foi a do engenheiro Pedro Viriato Parigot de Souza. Apesar de sua forte cultura técnica, apoiada ainda em conhecimento humanístico, quando a Copel chegava a pouco mais de mil funcionários teve humildade para reconhecer que já não detinha o controle sobre as múltiplas tarefas da estatal. Ora, em poucos anos, esses números chegavam a quase 10 mil, isso sem falar naquilo que é atribuído a concessões e serviços delegados. Habilitada a explorar os recursos do rio Iguaçu, inclusive cedendo um deles à Eletrosul, na continuidade da ousadia que foi a obra de Capivari-Cachoeira, só teve um defeito-chave: não haver, nem com a realidade do ''choque do petróleo'' por duas vezes, ter se habilitado a outras matrizes energéticas. Também perseguiu utopias como a da reversão do Rio Negro que não saiu dos mapas e nem chegou à maquete.





