LUIZ GERALDO MAZZA
Haja pudor afetado
O jornal ''Folha de S.Paulo'' produziu matéria sobre o governo passado a respeito daquilo que tem sido uma tradição por aqui: a reportagem camuflada, na chamada ''propaganda invisível''. Aliás esse hábito, por mais horrendo que seja, sob o ponto de vista ético, é comum mesmo nos grandes centros.
Ao longo dos meus 53 anos de jornalismo, parte deles exercido também na área pública, cansei de ver executivos do setor pagando veículos daqui e de fora por essa deturpada forma de ''merchandising'' e cujo apelo está no fato amoral de não configurar-se como propaganda ou matéria paga. No passado, e não muito distante, na tabela dos jornais havia uma referência específica ao preço maior da publicação feita sem caráter publicitário. Era, portanto, institucional nos veículos para atender vários tipos de clientela, dos políticos, empresários, enfim da vastíssima fauna que gravita em torno desse mercado.
Há uma ''cultura'' viciada nesse particular e à qual acabam se subordinando até agências de propaganda. Múltiplas formas de pagamento de comunicadores - gente de rádio, jornal e televisão - passavam por esse funil. As concessões têm sido tão absurdas que no primeiro governo Requião ele, além de ter os seus artigos publicados nos jornais mais importantes, aparecia mais de uma vez por semana nos dois principais canais de tevê dando recados, entrevista simulada, quando a legislação é clara quanto a interdição a esses abusos.
Cada governo que entra promete mudar hábitos na área. Lembro do ciclo aberto com a vitória do PMDB e do José Richa. Fez-se uma partilha e os amigos do governo acabaram, como sempre, prestigiados. Em suma nada mudou. Suplementos especiais, detalhando planos de governo, eram encartados. A cultura interna é muito forte e jamais se procurou adotar nas operações de mídia o peso dos veículos por sua tiragem e circulação até porque muitos deles fogem do IVC, do Instituto Verificador de Circulação, por método e pela circunstância elementar de que é preferível o sigilo sobre tais dados, especialmente quando se fatura sem a obrigação de fornecer retorno ao cliente, público ou privado.
Na gestão Lerner agências de propaganda funcionaram como um braço do governo no pagamento da prestação de serviços. Rolou muito dinheiro. Basta lembrar que Requião denunciou nos primeiros quatro anos o dispêndio de R$ 500 milhões. Dá para imaginar o que se gastou dessa forma, direta e indireta, nos Jogos Mundiais da Safadeza sobre os quais a CPI do Legislativo mantém-se muda quando se trata de filão tão relevante quanto o da Copel e do Banestado.
FOLCLORE Uma das repartições que soltava grana para jornais e jornalistas era o Serviço de Imprensa do Paraná, que substituiu a Câmara de Expansão Econômica do Paraná e que precedeu o Departamento de Turismo e Divulgação de Ney Braga e a moderna secretaria de Comunicação Social, hoje existente. Uma vez um colega veterano - e que tinha uma publicação semanal- foi procurar o diretor, jornalista Adherbal Stresser, e como ele não estava deixou em sua mesa a mensagem : ''Adherbal: e o $ ?''. No bilhete a rubrica do interessado. Adherbal me mostrou o papel e disse que se tivesse má fé o usaria contra o interessado desatento. Dito isso, rasgou o papelucho.





