LUIZ GERALDO MAZZA
O inimigo de estimação
O jornalista Cândido Gomes Chagas, da ''Paraná em Páginas'', é celebrado por sua obstinada oposição a toda dinastia do lernerismo. Os atingidos tentavam ridicularizá-lo pelo monotema (os chunchos das coleções de um estudo sobre Planejamento Urbano feitos na gráfica do Taniguchi e entregues de mão beijada ao escritório do Lerner para fins de proselitismo ou ainda as recentes batalhas sobre Cassioníquel em cima das multas de trânsito), mas o Candinho insistia, como faz até hoje. Pois agora apareceu o ''Candinho'' de Requião: o empresário-enxadrista Guilhobel Camargo. Só que esse levanta as questões no âmbito judicial e administrativo, a última das quais o pedido de impeachment de Roberto Requião, por infringência do artigo 29 da Constituição Federal, que coloca a acumulação de cargos (e ele o fez com o de secretário de Segurança) como fator suficiente de perda de mandato.
Como Candinho, que ia atrás dos adversários onde estivessem, mandando revistas com denúncias (uma gravíssima contra Karlos Rischbieter mostrava foto da irmã Anelise fazendo a saudação nazista numa escola em Berlim), agora vemos o Guilhobel na mesma faina como se deu ontem nas homenagens a Zé Dirceu no Centro Cívico ao distribuir panfletos a autoridades esclarecendo o pedido de impeachment.
Candinho é direto, seco, documental; Guilhobel é ornamental citando sábios da Antiguidade para lições de moral. Fez a distribuição do material até junto a desembargadores, dentre os quais tem muitos conhecidos. Na epígrafe do texto o enunciado bem ao seu estilo: ''A América deu o exemplo com Richard Nixon. O Brasil deu o exemplo com Fernando Collor de Mello. O Paraná pode dar o exemplo com Roberto Requião de Mello e Silva.''
Se entre Cândido e Lerner não havia relação de afetividade, já entre Guilhobel e Requião isso acontecia. Nesse trauma há muito de sentimentos feridos e não são poucas as amizades que assim terminam e podem até caminhar para o ódio. Diferença entre os atingidos: Requião, irado com as ações do ex-amigo, chamou-o de imbecil; Lerner valeu-se de uma ironia para referir-se ao Cândido Gomes Chagas como seu ''inimigo de estimação'', apesar de estar nessa há mais de trinta anos.
Para uma sociedade cúmplice, especialmente dos governos, como a nossa é importante existirem figuras assim, apesar dos exageros que cometem e do risco que sofrem de serem caricaturados pelo poder e os áulicos. A carga persecutória corre esse risco o tempo todo, mas ajuda a manter o contraste.
ESTILOS A diferença de estilos entre Requião e Lerner é radical. O exagero de um como guerreiro extremo encontra no outro o oposto da passividade. Assim mesmo Lerner, que viu no seu ex-adverso, o Candinho, um inimigo de estimação, o que não o impediu de processá-lo, quando muito criticado também reage. Isso se deu comigo. Durante dias seguidos mandei brasa criticando ações e omissões do seu governo e num dia, por uma questão de justiça, me vi obrigado a elogiar um ato seu. Os áulicos, pressurosos, foram ao Palácio Iguaçu para mostrar-lhe a xerox da minha coluna que o exaltava sem exagero e depois de lê-la tascou a frase de fina ironia: ''Exijo o direito de resposta!''





