O Itamar de Lula

Como a prática na teoria é outra e vice-versa, percebe-se hoje no Brasil o mais radical dos paradoxos com as pulsações, ora calmas, ora nervosas, das reformas previdenciária e fiscal. Os que respeitaram o discurso do passado são abominados, perseguidos e já se insinua criação de ''Gulags'' para essa gente.

Aqui no Paraná se pode dizer que, com Requião, tem-se a reprodução do primeiro governo, o que poderá apressar julgamentos ante a hipótese, admissível se não emplacar o sonho presidencial, de um terceiro mandato. Há quem diga que Requião estaria para Lula como outro seguidor do seu alinhamento, autárquico e nacionaleiro, o Itamar Franco, para o Fernando Henrique Cardoso. Simetrias do gênero, quando enunciadas, não provocam reação irada: Itamar há de sentir-se bem comparado com Requião, o mesmo se dando com o nosso governante.

DIFERENÇAS Há diferenças de estilo: Itamar, quando se enunciava na União a privatização da Cemig, partiu para encenações de peso com a polícia militar cercando a barragem e ameaçando declarar a ''regionalização'' da bacia hidrográfica mineira ou quando declarando a moratória diante das dívidas da União e que afetaram o ''Risco Brasil''. Requião tenta negociar com a ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef, o caso da desverticalização do modelo nacional. O fato de a ministra não ter ido ao Texas é indicador das dificuldades que haverá, ainda que o Paraná e a Copel possam merecer alguma compensação, o que seria justo e alentador.

Um cientista político do Paraná, o Adriano Codato, deu uma explicação que pessoalmente considero simplificadora de que enquanto Lula submete a política à economia, Requião faz o contrário. Ora não dá para comparar a complexidade de níveis de poder. O comando de um país condicionado pela Dívida Externa e a Interna e mais pelo formulário do FMI não se compara com a situação de um estado-membro.

O SALTO DO PIB Obviamente a economia, e isso mesmo naqueles momentos áureos em que batíamos recordes mundiais com o crescimento do PIB, sobrepujava a política e apenas em alguns momentos como o da hostilidade de JK aos conselheiros do Fundo e da arrematada burrice da moratória de José Sarney, o acessório saiu à frente do principal. Claro que em algumas empreitadas é de reconhecer-se que Requião pode levar a melhor como houve com o gás da Argentina e pode se dar com o problema específico do pedágio, já suficientemente politizado, como se enunciou com o leite, água e luz de graça, nenhum deles atendido.

Como diz Dalton Trevisan ''se Capitu não traiu Bentinho, Machado de Assis é José de Alencar''. O Lula que está aí é um FHC sem brilho acadêmico, embora fazedor de metáforas. E o Requião é o de sempre. O Paraná pode não sair do lugar, pode até emagrecer, como alguns analistas acusam, mas o discurso ácido e talentoso persiste: somos agora, não antes, a não ser o período da primeira gestão, o melhor estado do País, o ''Brasil que está dando certo''. Para quem usa como logomarca a posição das estrelas no Cruzeiro do Sul no dia em que tomou posse, a 1º de janeiro, culto à personalidade é apelido.

EFEITO REQUIÃO O advogado Rubens E. Requião, filho do maior especialista em Direito Falimentar do Brasil, já falecido, ao ouvir falar em ''Efeito Requião'' nas agências do Estadão e da Folha de S. Paulo, quanto ao impacto nas ações da Copel, corrigiu de bate-pronto: ''esse efeito é Mello e Silva, não Requião.''

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