Transparência excessiva

Tanto o Legislativo estadual como as câmaras municipais (a de Curitiba está nesse embalo há muito tempo) pretendem ter canais de comunicação como existem no parlamento nacional. Essa aspiração é, antes de tudo, falta de inspiração e criatividade. Quem haveria de suportar a monotonia da mediocridade às vezes rompida com alguma grosseria como a da ordem de prisão contra depoentes e advogados na CPI?
Se há interesse em tornar as coisas transparentes por que a CPI da Copel não clareia de uma vez aquele vexame da legislatura passada quando montou a CPI da Sercomtel num dia e a aboliu no seguinte? Há quem ache falta de ética mostrar o despudor do próprio Poder e num caso em que ficaram miasmas no ar, algo de podre, animando suspeitas de que tal recuo implicou em algum ganho financeiro. Ora seria algo de exemplar, tal qual se viu no País quando houve o cerco para deixar clara a atuação dos ''anões do Orçamento''. Será que não existe mais e por acaso não teria existido antes?
Quando a Ordem dos Advogados, secção estadual, delega ao criminalista Elias Mattar Assad a condição de mediador na CPI do Banestado para que os colegas não extrapolem e muito menos venham a ser constrangidos pela guarda pretoriana dos seguranças ou o autoritarismo de parlamentares estamos diante de um cenário inquitante. O legislativo se vê levado a essa providência porque é impotente para auto-regular-se o que, convenhamos, se trata de um absurdo.
Políticos quando insistem em falar em transparência normalmente se revelam empenhados em ocultar o que anunciam expor. Um jogo esquivo, burlesco e que ajuda a afundar a imagem da classe política, a dos corretores da esperança. Se querem transparência que venha uma solar, meridiana, e com tanta claridade capaz até cegar. Vejamos quem e por que recuou no caso Copel-Sercomtel e por que o homem que comandou o processo da privatização do Banestado, o Giovani Gionédis, não é convocado a prestar depoimento. Perguntar não ofende.
PEDÁGIO Um dia perguntaram a Requião se havia prazo para o pedágio e ele lembrou que nem o prazo da parteira é infalível.
APÊNDICE Se o Tribunal de Contas é apêndice da Assembléia Legislativa, a troco de que haveria uma crise institucional, como sugere o deputado Marcos Isfer, em ouvir conselheiros numa CPI? No Brasil é mais fácil aceitar a hipótese da greve de magistrados, essa sim uma crise institucional, do que a tal convocação. Rafael Iatauro, ex-presidente do TC, disse que se for convidado comparece. Vamos ao eufemismo: faz-se o convite em lugar da convocação. Mais uma vez cite-se Taleirand: ''a palavra foi dada ao homem para dissimular-lhe o pensamento''. Crise institucional vai haver quando o Judiciário tiver que abrir suas contas, a tal ''caixa preta'' de que Lula falava.
O fato é que o TC vive a desafiar a Assembléia quando no exercício das suas prerrogativas vai em cima de prefeitos. Aníbal Khuri tinha na gaveta projeto, clamente inconstitucional, a cada vez que apertavam um dos seus, criando o Tribunal de Contas dos Municípios. Como há constante troca de interesses, o TC, embora fustigado, se acha com direito a um raio enorme de autonomia.
A gaveta de Aníbal era uma espécie de ''bolsa de Pandora''.

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