Feito para você

No meio da desinformação geral e a serviço da espetaculosidade, eis que pinta notícia mais grave na CPI do Banestado: Roberto Setúbal, dirigente do Banco Itaú, alegou ter dado entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões ao governo passado para que a exclusividade das contas estatais permanecesse por mais cinco anos em seu favor. Sabia-se dessa prorrogação (ou seria um caso de morte súbita?), mas não que tivesse implicado em grana.
Já se prometia uma correria atrás dessa imprecisa importância, convenhamos muito baixa pela importância da concessão, e se ela poderia ser localizada para esclarecer tudo. Acreditava-se que entre os argumentos que justificariam essa prorrogação (ou seria um ''gol de ouro''?) estaria a cessão do complexo de Santa Cândida hoje utilizado pelas repartições públicas sob comodato.
O ESPANTO De repente tudo redundou de equívoco do executivo do Itaú e o espanto da novidade obviamente deu margem a presunções cabeludas, já que seria inadmissível que essa operação não estivesse formalizada. Havia cláusula em contrato que previa a hipótese da prorrogação, e que não era automática e sim dependente de acordo bilateral, aceito previamente pelo banco pela enorme vantagem de lidar com uma clientela cativa relevante, a das contas públicas.
Desde o começo do governo Requião tem havido a promessa de rever também o acertado com o Itaú. Algumas dependências estatais como o Porto de Paranaguá romperam essa canal de exclusividade e passaram a operar com bancos públicos e o beneficiado com a privatização não se mexeu para contestar e sequer acusou o golpe. O governador prometeu, sem a ênfase do pedágio, rever a operação e retomar o direito de escolha para canalizar o dinheiro público. Obviamente bancos oficiais como Caixa Econômica e Banco do Brasil dificilmente teriam condições operacionais a não ser que alterassem seus ritos e até a cultura técno-burocrática para assumir, com eficiência, esse encargos.
MOLEZA Afirma-se que só com a recuperação de créditos fiscais o Itaú cobriria o que pagou pelo arremate no leilão. Se assim fosse ganharia de novo, na moleza, a manutenção de uma conta que em pouco tempo se pagaria. Só que não era bem assim e, na verdade, a importância referida era de um desconto nas trinta parcelas do pagamento das ações da Copel dadas em caução: o governo pagou R$ 8 milhões à vista e obteve o desconto na composição acertada.
Desconfianças e presunções ganharam força na CPI, passionalizada mormente depois do depoimento do procurador Luis Francisco e do conflito entre advogados de gerentes e deputados. Esse episódio de ontem mostra o cuidado que se deve tomar nas apurações e obriga a uma revisão do estrelismo que não leva a lugar algum, embora renda pontos na mídia.
O Banestado era o banco de ''todos nós'' e também de todos os nós, como se vê na farra das lavanderias internacionais, mas na realidade era muito mais de alguns, minoria extrema, muitos deles ora encapuzados. Espera-se que o Itaú, cujo slogan é ''feito para você'' o seja também em favor de todos os paranaenses e não de apenas alguns até porque ganhou um presente sem herdar o seu lado mais hediondo que ficou como restos de enchente nas curvas de um rio de águas pouco transparentes, todavia irrigando interesses de uns poucos.

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