Ambiente abrasivo

Fui, como convidado ontem, fazer palestra na abertura do IIº Encontro Estadual dos Delegados de Polícia do Paraná. Meu objetivo era o de partir para uma purgação de culpas da ''mídia e polícia'', que era o meu tema. O discurso do delegado João Ricardo Képes de Noronha, vice presidente da Adepol, foi tão forte que tornou impossível, naquele ambiente, um exercício de autocrítica do meu exercício profissional e o deles, policiais.
É verdade que o governo Requião, e isso desde a campanha, e a corporação policial pisaram na bola: o primeiro apelando ao maniqueísmo primário de timbrar com o apodo de ''banda podre'' algumas das lideranças sindicais e os delegados ao tomarem posição engajada no processo eleitoral que pela forma adotada, por um silogismo, deu a impressão de vestir a carapuça da acusação generalizada e infamante.
A ausência tanto do secretário de Segurança, Delazari, como do delegado chefe, Adauto, à instalação do encontro, realizado no Hotel Lancaster, dá bem a medida de quanto é tenso o cenário e no qual não se divisa uma sinalização de um mínimo de diálogo. É surpreendente que a tolerância diante de movimentos sociais que extrapolam aquilo que a lei circunscreve não dê condições para um esforço no sentido de ao menos reduzir o lado mais emocional do conflito, o que não significaria um armistício e sim uma tentativa de pelo menos dialogar.
Pelo número de adesões ao congresso, se é que assim se pode interpretar, a banda oposta, a banda ''padre'', a colocada como o lado adverso aos que apóiam a ação sindical e associativa, não é tão significativa e não se pode subestimar seu grau de mobilização. Todo maniqueísmo é um risco e isso acaba afetando a todos.
Deplorei, como sempre faço aqui e na CBN Curitiba, que esse clima concorra para potencializar eventuais mancadas da Segurança, como a do revólver caneta que explodiu. É que a violência que estamos vivendo não tem como passar por um superdimensionamento, uma vez que mergulhamos no caos.
BIZARRICE Tanto o governo Lula como o de Requião atribuem as desventuras vividas à herança que receberam. Se não criarem fatos novos poderão até se reeleger e insistindo no mesmo discurso daqui a cinco anos. Por isso mesmo é relevante ao país a postura mais clara de oposição do PSDB, social-democracia sem sindicato, talvez a única do mundo.
AXIOMA Segundo íntimos do poder estadual se a justiça determinar o afastamento do secretário Luis Fernando Delazari, da Segurança, por incompatibilidade funcional invencível, ele estaria disposto a renunciar a sua carreira no Ministério Público para permanecer no posto. Raros são os exemplos assim de renúncia pessoal.
FOLCLORE Por falar em Ministério Público uma das pessoas mais queridas da área que conheci foi o Zezo Tramujas, procurador de Justiça. Quando menino, em plena Ditadura Vargas, ele seguiu para o Rio de Janeiro com uma caravana escoteira do Paraná. Um dos que estava com ele é o escritor e também procurador de Justiça, Noel Nascimento. Pois entraram na passeata de Sete de Setembro e quando desfilavam diante do palanque em que o presidente Vargas se encontrava, Zezo saiu da fila, fez a saudação escoteira e disse, em voz alta: ''escoteiros do Paraná saúdam o Chefe da Nação!''

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