Perda de humanidade

Vi, dias passados, na primeira página de um dos nossos jornais de maior circulação o cromo de um estuprador dentro de uma delegacia pintado e vestido como mulher. Não é a primeira vez e nem será última que isso acontece. Certa ocasião, inconformado com um caso semelhante, para fins pedagógicos, levamos o incidente ao Conselho de Ética dos jornalistas para ver se editores e donos de jornal se ligavam na obviedade de que essa execração do delinquente é crime, aliás feito, obviamente, com a alegre parceria de delegados, de comissários, superintendentes e ''tiras'' da polícia civil.
Nem os jornalistas e muito menos os policiais têm o direito de fazer esse tipo de exposição e a interação da imprensa com o setor de segurança, nesse episódio evidenciada, mostra elevado grau de comprometimento. Um jornalista de verdade tinha que denunciar a violência, resistir a idéia de uma encenação como essa e repelir essas formas de aproximação, altamente danosas.
Que tipo de cultura leva tanto a polícia como a imprensa a um transbordamento dessa ordem se não a idéia de que essa violência documentada, para humilhar ainda mais o criminoso, seria uma forma, ainda que primitiva, de restabelecer a ordem jurídica violada com a violência praticada pelo indiciado? Nenhuma das duas instituições pode substituir a hierarquia do Judiciário e tentar ser ao mesmo tempo o policial, o promotor, o juiz e também o carrasco, executor da pena de Talião, a versão selvagem do ''olho por olho, dente por dente'' que acabaria, por extensão, ''legitimando'' o estupro do preso.
No primeiro governo Requião houve uma medida contra a exposição dos presos (a folga dos ''papparazzi'' no Brasil é notória, posto que manifestamente ilegal) que infelizmente não foi mantida. Esse tipo de convívio é perverso. Formas variadas de violência e de crimes poderiam se alimentar dessa cumplicidade. Se é terrível para a polícia, não é menos grave para a imprensa. A banalização da violência nos leva ao embotamento e, sobretudo, à perda de humanidade.

BIZARRICE No primeiro governo Requião enfrentou juízes num momento em que estava bem com a polícia. Agora vai enfrentar os delegados num quadro de extrema aproximação com o Judiciário.

AXIOMA Pior que delegado calça curta é a vítima ficar sem calça.

GLOSA Descobrir que se pratica sexo em saunas é como estranhar que haja reza e confissões no interior de uma igreja.

EPIGRAMA Há suspeita de favorecimentos em concessões de alvarás para áreas que exploram o sexo. Quando Lerner era prefeito, denunciei, por mais de um mês, a permissão de um motel ao lado da sinagoga e ninguém se mexeu. Nem o prefeito.

FOLCLORE Bar do Hermes carregadíssimo. Entra o poeta popular antoninense Batista de Pilar e exige a presença da ''Tiazinha'' para o Batista depilar.

CROMO Para a Rosana, tão próxima do celeste, o lápis-lazúli. Para a Maria a água-marinha com um tom solar meio dourado. Mais do que as pedras elas se classificam preciosas. Semi-poeta só eu.

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