Carta Testamento

Embora a Carta Testamento para os brasileiros tenha uma conotação trágica e até revolucionária porque marca o martírio de Getúlio Vargas e também a derrocada dos que tentaram derrubá-lo garantindo, por antecipação, a vitória da dobradinha de partidos criada pelo caudilho, o PSD e o PTB, há formas bem suaves desse tipo de documento como o que o governador apresentou ontem e publicado em todos os jornais. Só que se trata de uma forma oblíqua de Carta Testamento, já que seria um relato de como o atual governador encontrou as finanças públicas especialmente no respeitante ao funcionalismo público. Seria o testamento de Lerner na versão do sucessor.
Quando não há verba, usa-se o verbo e o documento traz dois objetivos: a recuperação da dignidade do funcionalismo, quando ele está mais preocupado com a do poder de compra, o que não é incompatível com a dignidade e até a completa, e a reconstrução da administração pública estadual. Os entraves revelados no documento, torrencial e, por isso mesmo, de difícil entendimento, são de tal ordem (a regularização por exemplo de 18 mil cargos de instituições de ensino superior e de mais de 3 mil trabalhadores que prestam serviços há mais de 10 anos sem direitos), isso sem falar no aumento prometido no andamento da greve das mulheres de PMs para um contingente de 18 mil e ainda a reestruturação de 3 mil policiais civis, que se extrai a noção de que inexiste qualquer recurso para aumento. Nem para os que ganham menos do que o mínimo. E isso se dá quando algumas categorias passam de cinco anos de espera.
Sintetizando, o governo volta a ser uma espécie de máquina autofágica que se alimenta dos duros tributos como o Minotauro a deglutir carvão nos labirintos de Creta e tem muito pouco para investimentos. O secretário da Fazenda acionou o alarme, mês passado, mostrando a queda da arrecadação em maio e a possível manutenção da tendência declinante ainda nos meses seguintes diante do quadro de recessão. Esperança é a retomada do crescimento e a drenagem do ICMS represado nas montadoras e outros empreendimentos. Do governo passado.
NÚMEROS Como não há certezas sobre indicadores econômicos (o saldo de 54 mil empregos no primeiro trimestre levou um setor oficial a considerar o número 18 mil ao mês como referência de que havia 600 por dia), Requião sugere que cria uma montadora a cada dois dias, embora esteja a desmontar muitas coisas, algumas delas com sobras de razão. Ontem, por força de informes confusos, reduzi em muito esses números, o que cairia para 161 empregos semanais, o que, convenhamos, seria um terror. Ninguém pode garantir que se mantiveram em nível constante as contratações dos três primeiros meses, já que se de um lado as exportações aqueceriam o mercado de outro a recessão o sufocava.
PROBATÓRIO O presidente da Assembléia Legislativa, Hermas Brandão, voltou com a carga toda do seu périplo europeu. E disse o seguinte: Requião já completou o seu estágio probatório. É preciso acrescentar que além de estar quase no fim do sétimo mês teve mais os dois meses de transição em que os grupos técnicos dos que saíram se reuniram com o dos que entraram. A perplexidade diante de dispêndios obrigatórios como os decorrentes da rolagem da dívida, mais aqueles específicos do saneamento do Banestado, não se justifica, já que esse tipo de radiografia era por demais conhecido.

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