A batalha da rua

Há um setor do governo Requião, compulsivamente ligado à idéia de que os conflitos políticos ou administrativos, devem ser resolvidos na rua, algo no estilo cesarista do ''provocatio ad populum'', isso é a mobilização da massa como a feita na Ferrovila com omissão da PM, ora repetida nas invasões do MST, especialmente aquela das praças de pedágio. A primeira foi um vexame da qual se arrependeram os aliados de primeira hora do PT como Jorge Samek, a segunda um aparato desnecessário, já que o governo aprovaria a encampação com a maior tranquilidade, e que gerou um compromisso que será lembrado como presunção em toda imissão de posse não cumprida.
Não é somente esse lado que segue o apostolado, pois do lado oposto (viva Emílio de Menezes com seu trocadilho genial) se pretende a mesma orientação, seja com a estupidez das milícias ou essa passeata marcada para hoje e com esse tempo, frio e úmido, provavelmente fadada ao fracasso. E se fracassarem, já que o tal Sinapro não tem representatividade capilar entre agricultores, deixarão o MST ainda mais arrogante e prepotente do que é.
Como estão marcando um desfile que sairia do aeroporto de Afonso Pena até o Palácio Iguaçu, hoje liberado e sem cercas, sugeri em comentário na Rádio CBN que se fizesse algo criativo: como os sem-terra normalmente apelam para a ''arte'' do feio (lonas pretas, roupas rudes, rostos messiânicos) como nos filmes do neo-realismo italiano caberia aos com terra seguir o Joãozinho Trinta que diz que o povo gosta de luxo e não de miséria, carnavalizando a manifestação. Sugeri que alguns fazendeiros desfilassem no espaço e de asa delta, houvesse carros alegóricos, gineteadas e caubóis a cavalo. Tudo na base do ''paz e amor, bicho''.
Nem sempre quem mais mobiliza ganha as paradas. Em 1964 achávamos que a correlação de forças nos era favorável com a arregimentação dos sargentos, o comício das reformas na Central, a compactação sindical. Aí saiu às ruas a procissão das beatas e direitistas reunindo em cada lugar perto de 1 milhão de manifestantes, enquanto o comício das reformas tinha 150 mil. No momento o MST está com tudo, especialmente em função das omissões no cumprimento de mandados judiciais de imissão de posse por parte dos governos estaduais. Dá impressão que Cuba está próxima. Ao menos no imaginário desses primitivistas.
BIZARRICE - O governador Roberto Requião replicou a afirmação do presidente do tal Sinapro, Narciso da Rocha Clara, que o chamou de ''comparsa'' do MST, acusando-o de ser aventureiro e procurado pela polícia. E disse que iria pedir providências ao Ministério Público para que fosse preso. É um mandado judicial tão importante quanto uma ordem de despejo para invasores. Se esse mandado for cumprido e o outro não pega mal para a Justiça. A balança não pode pender.
AXIOMA - Requião chamou a atenção para o fato de um ''paulista'', o Narciso, querer fazer agitação no Paraná com a questão da terra. Mas nada se fez, até agora pelo menos, para cumprir a ordem de despejo dos invasores do prédio do Banco Itaú pelos ''sem-moradia'' comandados por um ''gaúcho''.
FOLCLORE - A Associação de Arbitragem e Mediação se propõe a mediar o choque entre sem-terra e fazendeiros no Paraná. Esse, ao ponto em que está chegando, precisaria no mínimo do Barão do Rio Branco ou da dupla Kissinger-Le Duc To que acertou a tensão menos complicada do Vietnã e ganhou o Nobel da Paz.

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