LUIZ GERALDO MAZZA
O risco do estresse
Há algum sinal no horizonte de um projeto de governo no Paraná? Pedalar com grande intensidade numa bicicleta ergométrica, para fazer uso da metáfora do próprio Lula sobre o seu governo, vale dizer o Brasil, não garante a ninguém que vá sair do lugar. Não tem a dimensão trágica e alpinística do Sísifo a carregar a rocha às costas na subida da montanha e repetindo o itinerário a cada vez que o fardo rolava para a base do morro. Polêmicas, quebras seguidas de protocolo, de regras de convivência de repente cansam, deixam de constituir novidade, ingressam na fadiga do material, no estresse. Se até o aço mais rijo está sujeito ao processo, colocando em risco viadutos, prédios e pontes dá para imaginar o que se dá com as atitudes humanas.
Entramos no sétimo mês de governo e tirando os gestos de racionalidade que partem da área fazendária (anistia, estímulos ao microempresário, incentivos à competitividade, via alíquotas mais baixas de ICMS) temos um clima permanente de abalos sísmicos no front político. Gestos largos como o da derrubada das cercas se mostraram, até como símbolos, de uma fragilidade espantosa; a ruptura de contratos só terá resultado quando tais eventos forem metabolizados no Poder Judiciário; a cruzada contra o pedágio, a mais radical de todas, ainda permanece na estaca zero e se as auditagens não forem eficazes veremos a contra-ofensiva dos consórcios.
O Paraná ganhou espaços, precários é claro, que revelam pouco prestígio; nas ações político-administrativas o governador Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, está bem melhor cotado do que o seu colega paranaense. No rigor matemático das reformas o deputado federal José Carlos Martinez, na condição de presidente nacional do PTB, por pilotar significativa bancada (nada menos de 50 deputados na Câmara Federal) é um elo da corrente mais expressivo do que o governo estadual, apesar de este ser expressão máxima de liderança interna.
O quadro, portanto, não é satisfatório, a despeito do fator abrasivo das polêmicas e dos factóides. A ruptura do imobilismo demora e o estresse das tensões começa a cansar de tão repetitivo como aqueles filmes Tubarão 1, Tubarão 2, Tubarão 3, Esqueceram de mim 1, Esqueceram de mim 2, Loucademia de Polícia 1, Loucademia de Polícia 2, Apertem os cintos que o piloto sumiu 1, Apertem os cintos que o piloto sumiu 2.
MONTAIGNE - O empresário e enxadrista Guilhobel Aurélio Camargo, mesmo lá no exterior, repousando em Bariloche, manda cartas para Requião. Ele tem várias ações contra o governo e levou a melhor naquela relativa à anulação da licitação da propaganda. ''Lembrei agora de uma frase de Montaigne'' - diz o compulsivo missivista - em ''Ensaios'' que lhe será útil com referência as suas últimas declarações. ''Soprar não é tocar flauta! Vós precisais também mover os dedos''. É sutileza demais para os nossos hábitos.
MOBÍLIA - Desperdício claríssimo é a última versão de mobília urbana na capital. Dá impressão que sobra dinheiro pra tudo no município. Choca essa prioridade num momento em que a cidade mostra suas fragilidades com a enxurrada do último domingo. Um aparato inútil e caro e com um detalhe: está havendo falta de peças. Único aspecto bom é a existência de uma espécie, ótimo para esconder-se dos chatos, cada vez mais numerosos, como proclama Dalton Trevisan.





