No banho maria

O Brasil costuma adotar o banho maria, a técnica de empurrar com a barriga, para suas contradições mais sensíveis. Assim foi com o abolicionismo também encarado, por via lenta e gradual, na evidência das leis do ventre livre e a do sexagenário para chegar na Lei Áurea. E também em meio a dois ciclos ditatoriais, tanto o de Getúlio Vargas como o mais recente dos milicos, ambos perversos, mas que também se valeram das simulações e eufemismos para criar um simulacro de avanço com a sequência de textos constitucionais até chegar na promessa de abertura.
Repete-se a mesma técnica em relação à questão fundiária, tão emocionalizada hoje quanto no surgimento das Ligas Camponesas de Francisco Julião, o remoto embrião, hoje mais abrangente e capilar, do MST. Quem assiste às cenas demagógicas da convocação de desempregados e desocupados da periferia das cidades do Pontal do Paranapanena para que se inscrevam entre os interessados num lugar no assentamento por dirigentes do MST tem uma idéia dos riscos à estabilidade do país. E mais quem apura aquilo que a nova geração dos sem-terra, em seu campo de ação e imaginário, condicionada por um trabalho de politização e fanatismo, como jamais se viu mesmo nos momentos de maior exasperação radical como a da direita do integralismo à esquerda dos mais intolerantes comunistas, está ciente de que a ruptura pode se dar a qualquer momento no jogo sinuoso das chantagens.
Joga-se também com a elasticidade dos cronogramas no cumprimento de decisões judiciais, como se verá ainda agora com o decreto de intervenção federal no Paraná, decidido, semana passada, pelo STJ. O governo não quer assumir papel repressivo e tenta ganhar espaço para buscar saídas sem violência. Lerner foi tolerante com o MST e, além de permitir o circo do acampamento diante do Centro Cívico, acabou deixando para o seu sucessor uma decisão judicial do TJ não cumprida. No seu governo teve o caso do sem-terra morto em manifestação como no de Requião, o primeiro, a perda de três PMs e do líder Teixeirinha. Tolerância não coloca a vida como valor acima da propriedade porque esta persiste conturbada e nem se redime o excluído.


BIZARRICE - O governo estadual diz estar criando 600 empregos por dia quando a única intervenção sua foi de natureza fiscal e nenhum empreendimento novo. Como a intervenção do STJ isso é creditável à herança recebida.

AXIOMA - Agora só falta o radical basista atribuir ao governo o feito de anteontem com as enxurradas e o granizo. Serviu para testar tanto o governo estadual como o municipal. E nenhum ''gelou'' o outro. Seria pleonasmo.
GLOSA - Se a licitação da propaganda oficial não era uma ação lícita pelo menos engendrava um trocadilho.

FOLCLORE - Só falta agora com novo recurso ao TJ contra o despacho do presidente que favoreceu o retorno de Delazari à Segurança o titular sair e entrar alguém do ''banco'', diga-se do gabinete. Tal se desse teríamos metáfora de um quadro oscilante, pendular, como é o da segurança pública. O fato é que a sensação de impotência é mais do público em geral do que do governo.

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