Urgência e insurgência

A reforma agrária, já o disse, perdeu o bonde da história. Inácio Rangel, uma das maiores expressões da esquerda (verdadeira, não a populista e circense), deixou clara essa circunstância ante a modernidade do País e a sua condição de ''sociedade complexa''. Argumenta-se (e isso não deixa de ter uma certa base de verdade) que também o abolicionismo tardio era visto como um fator de desorganização do sistema produtivo. Só um desatinado e merecedor de botar uma camisa-de-força pode defender a irresponsabilidade dos carros de som em Sandovalina, no Pontal do Paranapanema, convocando os pobres para se habilitarem a um pedaço de terra. É a demagogia, tentando simular uma guerrilha, quando, dada a tolerância das autoridades, isso mais parece uma gincana enlouquecida. Não se fará reforma agrária, minimamente, com esse tom selvagem e primário como se coubesse ao movimento não a tal conquista agrária, mas a efervescência política, ao tentarem remir os ''excluídos'' como desempregados e favelados.
O BONÉ DE LULA O governo federal no encontro com o MST sugeriu que, no segundo semestre, a prioridade um do governo será a reforma agrária. Ora um país que ainda tem os limites da dívida externa, dívida interna e a necessidade de retomar o processo de crescimento tem ajustes muito mais urgentes, como aliás está se verificando no governo Lula em seu empenho de afastar o fantasma, primeiro da crise cambial e, na sequência, a recuperação da credibilidade para evitar a escalada do Risco Brasil. É evidente que há um problema fundiário no País, expressão também dos nossos desníveis sociais, que existem há tanto tempo que Joaquim Nabuco já o denunciava pleiteando essa reforma estrutural.
Instituições como o Incra têm dado mostras de um perigoso faccionismo como se deu quando um dirigente da Fetag, Federação dos Trabalhadores na Agricultura, na presidência da organização inspirou, no governo Sarney, um decreto que Londrina conhece muito bem: aquele que declarou todo o município de interesse social para fins de desapropriação. Apesar dos avanços democráticos ocorridos no Brasil a ''ideologização'' do tema ainda dá espaço para essas barbáries como se vê quando o Incra perde a sua condição de mediador institucional para tomar aberto partido de uma ruptura, apostando tudo no emocional.
UTOPIA RETRÔ A insurgência sempre aparece, ainda mais quando condimentada no passionalismo dos doutrinadores, como única saída para as tensões. A pobreza é uma urgência que leva décadas, às vezes, séculos para ser atendida. O Fome Zero é um desses referenciais que até agora, passados seis meses de governo, não decolou, mesmo com a enorme badalação feita. Reforma Agrária, que deveria ter sido feita pelos anos 20 e 30 do século passado, inserida hoje numa sociedade urbanizada e com alguns sinais fortes de pós-industrial e tecnológica, é contradição em termos, algo próximo de tarefas arqueológicas. Acreditar que teria como, mesmo a longo prazo, habilitar-se a competir na agropecuária avançadíssima, uma das maiores do mundo, é mais do que uma ilusão para transformar-se numa estultice. Como desenvolvimento econômico é quase nula, apesar da expressão que formas de agricultura familiar e de subsistência possam alcançar em seus nichos de micro-organização. É, portanto, mais ''social'' do que econômica e em função dessa assimetria pouco útil para efetivo crescimento e distributivismo.

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