O primeiro tiro

O Paraná foi palco, pelo menos nas circunstâncias atuais, do primeiro tiro contra os sem-terra depois do ritual do boné com Lula. Sempre vítimas, jamais autores, os sem-terra que foram alvo desse ato de resistência por parte de empregados da fazenda alegam que não iam invadir coisa alguma. Perguntados o que faziam acampados na beira do estrada, como a laranja madura do Ataúlfo Alves, deram indicações que poderiam significar até o ato de refletir no sentido filosófico do termo, como se não passassem de peripatéticos seguidores de Aristóteles que estudam caminhando e assim chegam à luz e à verdade.
Seguiu-se uma ordem sensata do governo: a retirada dos acampados para evitar o acúmulo de tensão num só ponto, um furúnculo latejante prestes a purgar. Toda ação implica em reação. A simbologia vista com maus olhos pela oposição de Lula agradando os sem-terra teve a resposta imediata: uma CPI, o que a turma do deixa-disso sempre evitou, para examinar o que é o MST, quais fontes o sustentam e o que ele tem feito no Brasil.
O Legislativo nesse caso específico acaba cumprindo o seu papel e evitando que o MST assuma características hegemônicas acima das instituições, já que tanto o governo central como a maioria dos estaduais nada faz para enfrentá-lo com receio de parecer politicamente incorreto, quando não pratica atos claros de adesão como no Paraná, onde o governador se declarou um militante, sem falar que se recusa, de forma sistemática, a cumprir qualquer ordem judicial.
Agora surgiu mais um complicador; o promotor Fuad Chafic Abi Faraj, de Ponta Grossa, aquele mesmo que tentou salvar o curso de Medicina, abriu inquérito para apurar responsabilidades pela invasão das praças de pedágio pelo MST e se houve orquestração do processo, o que está claramente evidenciado. Não bastasse a notória pressão (o circo de caminhoneiros na frente da Assembléia, uma ociosidade por ser redundante o servilismo da Casa) no dia da aprovação da encampação do pedágio tivemos o registro da fala de um suposto líder dos caminhoneiros Neuri Tigrão que declarou em rede nacional da CBN-Curitiba que ele nada tinha a ver com o agito e aquilo era obra do PMDB, citando um dos integrantes da guarda pretoriana do partido. Essa gravação é matéria de prova e quando foi proferida tirou a calma do pessoal que festejava o sucesso da operação pedágio. Agora correm o risco de pagar esse pedágio também.
BIZARRICE A lei da encampação foi sancionada por Requião e as pedagiadas, pelo jeito, não se mostram dispostas a negociar na marra, antes da tal auditagem que o Ministério dos Transportes autorizou.
AXIOMA Que tem chuncho e excesso no pedágio todos sabem. Só que as ações do governo se dispersam na busca do frisson do espetáculo. E isso atrapalha.
FOLCLORE Quando saiu ontem a notícia da intervenção federal no Paraná pelo STJ (descumprimento de medida judicial no governo Lerner) imediatamente o estafe do governo estadual buscou minimizar o episódio. Como na Arca de Noé também houve aquela reação: ''puxa, nem começou a chover ainda...''

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