''Slogan'' e pensamento

A política se serve mais do ''slogan'' do que do pensamento. A desvantagem dos que combatem o fundamentalismo da moda, denominado neoliberal, é não terem um corpo de doutrina articulado para enfrentá-lo. Isso se dá com o governo Lula de forma expressiva: a ausência de espaços de manobra para o Brasil ante as condicionantes do FMI, ajuste fiscal e reconstrução do Estado é a causa de toda a fermentação interna do PT com o ressurgimento de velha e vigorosa sedução fascista, posto que usada no ''socialismo realmente existente'', sob a denominação contraditória de ''centralismo democrático'' com a sanha no estilo inquisitorial contra os resistentes como essa figuraça, a senadora Heloísa Helena, e explicação também da ruptura dos sindicatos de servidores públicos diante do pragmatismo da CUT, posto a serviço do Estado.

CONVERGÊNCIA LULA-FHC - O itinerário de Lula começa a reproduzir o do seu antecessor, originalmente um intelectual de esquerda, FHC, absorvido pelo realismo que o obrigou a dizer que esquecessem o que havia dito e escrito. O Lula, que tem ainda maior taxa de credibilidade do que o presidente, embora queda no Ibope, se saiu muito bem no congresso da CUT, invocando a sua legenda histórica, mas dificilmente isso funcionaria no ''papo'' de ontem com o MST que há muito tempo extrapola e por causa do imobilismo do governo que tem colocado o princípio da liberdade muita acima do da autoridade, a não ser na cruzada fanática diante dos dissidentes.
O ''slogan'' pode ser eficaz na versão popular das ideologias, como se dava com o marxismo-leninismo das massas ou aquele catecismo primário de Mao-Tse-Tung, apenas enriquecido pela efabulação ideogramática. Como não há doutrina articulada para opor-se ao neoliberalismo e tão-somente o inconformismo da maioria, e aí se incluem verdadeiros liberais, tenta-se discutir o fenômeno, tão totalitário quanto o foram as pregações de Stalin, Hitler e Mussolini, por referenciais genéricos. Padre progressista, militante do MST, opositores vários se agarram na guerra de rótulos. Basta ser contra o populismo delirante e lá vem o apodo de ''neoliberal'' e ''a lógica do Consenso de Washington''.

MANIQUEÍSMO - É o maniqueísmo da Guerra Fria. Só que naquela havia dois sistemas em choque e ambos muito bem articulados. Hoje temos um fundamentalismo que tem a sua maior fraqueza, ontológica, no fato de ser totalitário e nada mais. Devassa em planilhas do pedágio, ruptura de contratos irregulares como os da Copel, são necessárias, mas em nada afetam o neoliberalismo, cujo canto de sereia está aí para justificar uma ordem satânica e de escravismo e contra a qual ainda não se estabeleceu uma alternativa articulada e fundada em doutrina, por incrível que pareça.
Costumo a esse respeito valer-me de um axioma de Norberto Bobbio quando dizia que ''poder e direito são faces da mesma moeda; o poder cria o direito e a este cabe contê-lo''. Óbvio que os jus-naturalistas (as Medidas Provisórias estão aí para evidenciar a distância entre direito puro e positivo) repudiam essa analogia que também decalco para a tensão dialética entre capitalismo e democracia. O capitalismo é dominante e a democracia o meio de dissuadi-lo e reformá-lo. A ideologia sataniza e distorce. Em nome do desejável, sugere que o possível é uma escala necessária, mesmo que seja a ditadura.

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