Espírito da Dercy

Em meio à fala de Roberto Requião ao seu secretariado (há quem o considere, como se dava como Lerner, um sectariado), ontem, no Canal da Música, houve um momento de transbordamento oratorial do governador, dando a impressão de que assumia o linguajar da Dercy Gonçalves ao referir-se ao pedágio como ''merda'' (sic) que já estava lhe ''enchendo o saco''. A fala foi gravada pela Rádio CBN e colocada no ar sem aquele sinalzinho, o ''pi'', o apitinho da censura sutil empregada nos programas de tevê.
Não é para menos o aborrecimento do governador: a Assembléia Legislativa se enrola nos rituais, mesmo quando acintosamente provocada pela interpelação pessoal aos deputados como co-obrigados e coniventes com as consequências das ações judiciais que advirão para restabelecer a ordem jurídica na perspectiva, é claro, das concessionárias. O semanário '''Hora H'' em matéria que parece ter agradado o governador sugeriu que as pedagiadas ''deram um tapa na cara dos 54 deputados''.
A veemência do texto faz esquecer que ''tapinha'' não dói, como sugere o sucesso dos ''funkeiros'', tal tem sido a pior das abdicações do Legislativo na histórica subserviência a tudo o que pretende o Poder Executivo. Seja agora ou na maroteira do leilão da Copel ou ainda na mais sórdida das manobras ao instalar uma CPI sobre a venda das ações da Sercomtel à estatal de energia e no dia seguinte a destituir, o que deve ter sido também o desejo do ocupante de plantão no Palácio Iguaçu. Ou, quem sabe, a inspiração tenha sido ainda mais dolosa que tal atitude justifique presumir.
Não é preciso recorrer a Nelson Rodrigues para defender em determinadas e apropriadas circunstâncias o recurso ao palavrão. Todavia, embora a revolta do governador visasse o público interno, a base aliada, o uso das expressões pode ser interpretado por dois ângulos: o inconformismo pessoal ante o risco de a causa cair na inércia e a insegurança num final interessante para o seu intento, apoiado pela maioria da população, de fazer baixar as tarifas escorchantes do pedágio.
COMPLICADORES Se for confirmada a notícia corrente de que a Ecovia teria vendido sua participação no pedágio à multinacional italiana Impregillo mais complicadores surgem na batalha para encampar as empreiteiras ou fazer baixar as tarifas. É possível, em tal circunstância, que o próprio governo federal entre na parada, como autorizador da delegação de competência, para evitar efeitos externos aos quais encara com a máxima e jeitosa diplomacia.
A presunção de que tal poderia ocorrer decorre do fato de que a C.R. Almeida só se habilitou a operar como barrageira na construção do Canal de São Simão, MG, em sociedade com o grupo italiano na infra-estrutura da montadora da Fiat.
Pode ser uma jogada de contra-informação, aliás arma que o governo estadual também emprega com muita frequência.
SUSPENSÃO Pelo menos, por enquanto, está suspensa, em liminar concedida pelo juiz da 4 Vara da Fazenda Pública, a licitação da propaganda estadual.
ATAQUE O prefeito Cassio Taniguchi saiu do caramujo e atacou Requião ontem na CBN como alguém empenhado na ''desconstrução''. Demorou, mas compareceu.

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