LUIZ GERALDO MAZZA
Uma estranha mediação
O governo estadual, pelo jeito, está entendendo que o Ministério Público ainda é um apêndice do Executivo, como se dava no passado. A intervenção da Procuradoria Geral do Estado provocando a Corregedoria da Procuradoria Geral de Justiça para enquadrar o promotor Fauad Farej, de Ponta Grossa, que levou ao Judiciário o caso do fechamento do curso de medicina na universidade daquele município é algo que conflita com o grau de autonomia concedido pela Carta de 1988 à instituição. Mesmo que tal atuação fosse imprópria essa avaliação deveria, em qualquer hipótese, ser metabolizada no MP e jamais ser alvo de qualquer tipo de provocação de outro poder, até porque a Justiça havia acatado em princípio o pleito do promotor.
Como um homem antenado no clamor popular, Fauad Farej exerceu inquestionável prerrogativa ao provocar o Judiciário. O fato de isso desagradar o Executivo não torna ilegítimo o seu pedido, rigorosamente no âmbito de suas atribuições e prerrogativas. O contrário seria admitir que para o governo as boas ações do MP só seriam as que fossem exercidas contra o seu antecessor e adversários.
O Ministério Público, sob o governo Lerner, não se acomodou e fez numerosas denúncias e investigações em cima de atos de improbidade. Essa prerrogativa deve ser mantida sob qualquer gestão, pouco importando o seu conteúdo e grau de maior ou menor credibilidade pública. E naquele governo esteve muito perto do martírio com o atentado contra a Promotoria de Investigações Criminais.
Mesmo que o governador tenha toda a razão, até por estar apoiado numa séria preocupação da Associação Médica do Paraná e do seu Conselho Regional com a má condição operacional do curso, ainda assim é compreensível que o debate do ato não se restrinja ao âmbito político e das manifestações, como as havidas anteontem, e possa circular também na instância judicial, ainda mais quando a administrativa, pela força do ato praticado, teria se esgotado. Espera-se que o MP continue a sua vigilância não apenas sobre o passado, mas também em cima do presente e até do próprio futuro porque ele ganhou uma delegação para agir em nome dos interesses difusos da sociedade e por isso mesmo não pode, como se deveria dar também com o Judiciário e o Legislativo, abrir mão da sua autonomia, o que não o impede de buscar a interdependência e a harmonia em ações conjuntas como a desejada no projeto ''Mãos Limpas''.
CONTRADIÇÃO Se o curso de medicina de Ponta Grossa foi suspenso, segundo Vanhoni, por questões orçamentárias por que o governo estadualizou o terceiro grau de Bandeirantes, da Faculdade da família Meneghel?
CAÇA-CACHORRO Nos anos 50 cansei de ver, em Curitiba, que então era uma verdadeira Cidade Universitária, estudantes de medicina da Federal caçando cachorros nas ruas para experiências cirúrgicas. O biotério só veio décadas depois e ninguém interditou o curso.
AFORÍSTICO Ditadura: o ovo da serpente é chocado pela tolerância e omissão.





