LUIZ GERALDO MAZZA
A timidez paranaense
Um dos clichês, já transformado em arquétipo sociológico, sobre o paranaense é o de que seria, antes de tudo, um tímido. Estaria ligado a outro conceito, ainda que não bem examinado, elevado a axioma: o de que somos sem identidade.
Timidez para certas coisas, ousadia para outras. Exemplo de timidez é o caso de Euclides Scalco, tido como preceptor filosófico e político de FHC, durante oito anos e que não obteve qualquer progresso na questão do Hospital de Clínicas, de cuja associação de amigos era um dos mais destacados membros. O HC segue como periférico sem ter o pagamento ministerial para o seu quadro funcional e causa mediata de todas as greves e tensões que lá ocorrem.
Agora é substituído na Itaipu pelo Jorge Miguel Samek, também do dedicado voluntariado do HC. Ao fim desse mandato, se lá permanecer, teríamos nada menos de 12 anos de paranaenses ao lado ou perto do presidente e nada! É por isso que acho discutível e às vezes apenas um motivo para massagear egos provinciais essas campanhas por gente nossa no STF ou em ministérios. De Bento Munhoz da Rocha para cá tivemos vários e quase sempre comeram pela mão dos quadros permanentes dessas pastas. Timidez mesmo foi a de Deni Schwartz, do Desenvolvimento Urbano, e que não brigou, ao contrário até apoiou, a perda da Caixa Econômica Federal de sua área.
Boa parte dos ministros não era lá de QI muito elevado. Mesmo talentosos como Ney Braga, Munhoz da Rocha e Rischbieter nada acrescentaram em favor dos nossos interesses. Vários andaram pelos ministérios de Educação e de Saúde (o último o Alceni Guerra, injuriado e caluniado no governo Collor), mas não moveram uma palha por essa questão do Hospital de Clínicas, um dos poucos hospitais-escola que usa seus recursos da Fundação para pagar o pessoal. Dos que tiraram partido, cite-se Affonso Camargo que nos Transportes trouxe coisas substanciais ao Paraná e que lhe garante vitórias tranquilas em Ponta Grossa, um dos maiores entroncamentos viários do território.
A impressão que se tem é de extremo provincianismo da nossa gente, ausência de pegada cosmopolita e de articulação para ''minar'' o aparelho estatal com paranaenses ou afinizados como o banco de fomento mineiro fez, pacientemente, ao longo do tempo e teve respaldo logístico para ocupar espaços.
ANEDOTÁRIO Dos nossos gracejos populares a respeito da suposta timidez (para não dizer incompetência, preguiça e desídia) um já transformado em alegoria clássica é a piada de Joffre Cabral e Silva, ex presidente do Curitibano, criador do Santa Mônica Clube de Campo e Atlético Paranaense (morreu num jogo em Londrina quando o goleiro Muca do super-time de 1969 engoliu um frango), em cima dos símbolos do Estado. Como se sabe o brasão e os dísticos restaurados mostravam um lavrador com sega à mão e o Joffre ironizava ''aquilo não é agricultor, coisa nenhuma e sim um paranaense de atalaia pronto para cortar a cabeça do primeiro que tente aparecer''.





