O amargor da democracia


Totalitários, quando estão no poder, costumam falar em democracia para justificar suas generosas intenções. Quando são contestados, já que se acreditam como os príncipes beneficiários do Direito Divino, não gostam do lado amargo, que é o contraditório, a contestação.
Não é o caso do presidente da República que vai ter que responder uma interpelação de magistrados do Paraná para que se explique sobre ''caixa preta'' do Poder e, sobretudo, a alegada existência de um braço do crime organizado no Judiciário. O STF aceitou a demanda e Lula terá 24 horas para respondê-la ou não, ensejando, daí em diante, um processo judicial que terá que responder como qualquer cidadão.
Lula fez a declaração no Espírito Santo, área tão envolvida com o crime organizado que a OAB tinha pedido Intervenção Federal e FHC se recusou a fazê-lo pela circunstância elementar de que estávamos num ano eleitoral. Um dos poderosos da praça, o ex-presidente do Legislativo, está preso e há também pelo menos um caso de um juiz sob suspeição. Mesmo, porém, que estivesse se referindo, de forma didática, a uma situação regional ao generalizá-la mexeu com os brios da magistratura paranaense que hoje está mais para ''faixa preta'', nos treinamentos de defesa pessoal, do que para a ''caixa preta''.
Aqui no Paraná um promotor público resolveu questionar a legalidade do ato do governador de fechar o curso de Medicina da Universidade de Ponta Grossa. É algo que Requião recebe com naturalidade, apropriada à democracia. No passado, o governador teve um conflito com a magistratura que deu margem a uma greve impossível a dos próprios juízes, obra do absurdo, seguida de uma tentativa de ''impeachment'' de Requião, outra infantilidade, que se sabia inócua. Muitos dos seus atos vão ser contestados, especialmente os de ruptura contratual e quem os julgará será a justiça, o que não poderá ser feito em clima de coação.
BIZARRICE Um vereador de Almirante Tamandaré, há três anos, tenta evitar que seus colegas nomeiem parentes para a Câmara Municipal. Ontem em Curitiba um ato judicial designou a esposa de um serventuário aposentado para cuidar de um cartório de protestos. O vereador vai ficar nessa mais três anos. Tempo também em que os irmãos do governador permanecerão em seus cargos no Paraná.
AXIOMA Nepotismo, na origem, era referência aos sobrinhos do Papa (engajados anti-clericais afirmam que eram ''filhos'') e hoje é prática generalizada em todos os poderes no Brasil. E quando nós andamos pela rua somos vítimas desse nepotismo com meninos de rua pedindo esmola e nos chamando de ''tios''.
GLOSA Ney Braga, Alvaro Dias e Lupion só nomearam um irmão para o primeiro escalão. José, irmão de Moisés Lupion, foi destituído da Copel por causa de uma denúncia de que linhas de transmissão beneficiaram sua propriedade.
AFORÍSTICO Cassio Taniguchi ao devolver o comando do transporte da Região Metropolitana à Comec criou um pacau de bico para o governo em silêncio.

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