O trabalho ''já era''


De data revolucionária, o 1º de Maio, hoje comemorado, com origem no martírio de Chicago pela limitação da jornada obreira, tudo se desfez em alegoria com incríveis churrascadas de peladas entre casados e solteiros a pretexto de unir os elos entre o capital e o trabalho. Além de perder o fogo da revolução, para a qual Marx e Engels convocaram os trabalhadores na luta de classes no Manifesto Comunista, chegamos a um ponto da ''civilização'' em que o fato dominante é justamente a precarização do trabalho. Num país sem malha suficiente de serviços sociais como o Brasil, longe do Welfare State da social-democracia que temos apenas no discurso, isso é tragédia pura.
Marx não era um azedo como nossos esquerdistas radicais. Era um pensador sofisticado demais para o papo dos políticos e o catecismo primário das versões grosseiras, como essas repetidas confusamente pelo MST com slogans tentando substituir o conhecimento e a reflexão. Por isso ele via na classe burguesa um sentido revolucionário e na antevisão da acumulação capitalista os sinais da globalização detalhados com precisão profética no Manifesto.
TRABALHO E DESCARTE Quando estudei economia política dos fatores que a compunham - o capital, o trabalho, a natureza e a organização - o mais dignificado, até por nossa tradição cristã, era o trabalho, o capital humano. Toda a doutrina socialista desde utopistas e românticos até os ''científicos'' opera em cima desse valor e nos tempos modernos o trabalho disputa com a natureza essa primazia, agora em função do discurso ambientalista, apontado como a forma racional de pegar o capitalismo numa das suas contradições mais fortes. Haja vista para a reação americana ao Tratado de Kioto.
Numa economia pré-recessiva como a nossa a sustentabilidade do emprego passa a ser mais relevante que um aumento (o que não impediu as ações metalúrgicas pela reposição junto às montadoras) ao mesmo tempo em que caem os salários e se amplia o descarte da mão de obra com tecnologias de ponta e robótica. O cenário de Lula, quando emergiu como subproduto desses conflitos, não tem a menor semelhança com a atualidade. A aristocracia obreira do ABCD já não tem nem a dimensão e nem o poder de compra de antes. Curitiba com seus sete mil metalúrgicos, das três montadoras mais a New Holland, é um exemplo.
FORÇA DA ORGANIZAÇÃO Em ''Anatomia do Poder'' o liberal (nada a ver com a sua deturpação da moda e recente dos neoliberais, neoplasia no pensamento) Galbraith lista como fontes do poder a personalidade, a propriedade e a organização, esta o estágio mais desenvolvido e que podem servir aos dois pólos, o da empresa e dos operários. E é em cima desse fator que se pode avançar, posto que às vezes uma vitória como a do Lula deixe os que ganharam em posição oposta ao que pregavam e mais próximos da economia do que do social, do capital do que do trabalho.

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