Santidade ofuscada

A despeito de toda a sua representação ritualística, a Sexta-Feira da Paixão perdeu, há muito, na sociedade massiva, o clima reverencial e de recolhimento que a caracterizava até os anos 60. O próprio ''aggiornamento'', que veio com as ações do Papa João XXIII, contribuiu, com as simplificações que subtraíram boa parte da mística (o que os carismáticos buscam recuperar por outra via), para essa secura com a retirada do latim entre outras medidas. Havia e há ainda um tom de mistério em ouvir ''Agnus dei que tollis pecata mundi'', Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo. E vinha o retorno cantado ''Miserere nobis''. Hoje nem advogado fala o latim, tanto que inventaram os comunicadores a expressão ''latrocida'' que a rigor significa matador do ladrão e não autor de um latrocínio, homicídio como meio, roubo como fim.
O ESPETÁCULO É claro que há cidades brasileiras que cultuam com o fervor de sempre essas manifestações em que o espetáculo místico-religioso não é prejudicado por um sentido teatral mais abrangente como na montagem pernambucana de ''Nova Jerusalém'' que não hesita em convocar artistas globais para algo que também se ajusta a um propósito visível de turismo. Já lidei nessa área, a do turismo no primeiro governo Ney Braga, e uma das propostas (sugestão de um primo já falecido, o médico Fernando Veiga Ribeiro) que deixamos foi justamente a de uma exploração mais aberta de valores religiosos na Semana Santa inclusive com a riqueza de rituais bizantinos aqui existentes, entre etnias como a dos ucranianos e dos gregos. O Natal, hoje, é o único evento capaz de merecer inclusão num calendário nacional, o que revela o potencial dessa dimensão religiosa do turismo.
A EUCARISTIA - A dessacralização desses eventos deve ter contribuído e muito para a mais nova Encíclica voltada justamente para revalorizar o sentido permanente da Eucaristia pelo exercício de uma reflexão em profundidade sobre os seus significados e possíveis mistérios porque essa é uma herança do judaísmo e cristianismo. Lembro do maior estadista e orador incomparável, que tivemos em Bento Munhoz da Rocha, maritanista engajado (seguidor de Jacques Mariotain) numa prédica em que expressava uma visão também política da Eucaristia como forma comum e, portanto, igualitária de pobres e ricos identificados no culto da Ressurreição como expressão de fé.
É claro que só a alegoria não basta para que se obtenha avanço significativo na busca operacional e desejável da igualdade, algo mais ligado ao ideário socialista, da mesma forma que a liberdade é mais dos liberais, como ensina sempre Norberto Bobbio. Da mesma forma que é desejável uma ponte entre a liberdade e a igualdade a política, na condição de arte do possível, tem ido, nuns povos mais do que em outros, na direção da redução do fosso como se deu nas democracias ocidentais com o Welfare State, o Estado do Bem-Estar, comum às formas de social-democracia e no que confiamos que ocorra sob Lula.

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