O Estado brasileiro quebrou. E a terapia indicada, certamente com assessoria do FMI, foi a de ''flexibilizar'' estatais e ''terceirizar'' atividades antes genuinamente públicas. Tudo isso se deu legalmente com tramitação de projetos no Legislativo (a banda de música que hoje está com Requião e ontem era a favor de Lerner foi destacada nesse empenho) e estabeleceu contratos legais, de difícil revisão, de parcerias. Essa a realidade. A grita atrasada e em alguns casos absolutamente hipócrita não redime culpados até porque a ousadia deles se alimentou da fragilidade dos que poderiam ter feito denúncias.
Havia um ''modelo'' e um dos monitores dele era o BNDES que se recusava a dar financiamentos a estatais e atendendo apenas os setores privatizados. Na origem desse caso da Foz do Chopim está essa orientação. Que o ''modelo'' quebrou a cara, todos sabem. Tanto que temos aí esse escândalo que é o caso da privatização da Eletropaulo, um paradigma a destacar o lado selvagem e primário daquilo que era evidenciado como expressão máxima da modernidade.
O debate em torno do que ocorreu e ocorre na Copel despreza condicionantes nacionais para tentar demonizar tudo o que foi feito. Que se tratou de manobra induzida, todos sabem, e não se ignora também que não será nada fácil anular as parcerias solidamente protegidas por contratos, tal qual se dá com as vias entregues ao pedágio, alvo de discursos, quando também se liga a um ''modelo'' nacional e em pleno funcionamento.
Tudo o que se tem publicado parece ignorar essa ''laicização'' do Estado, isso é o empenho em torná-lo ''leigo'' a serviço da privatização seja na telefonia, na energia e nos transportes. Ninguém, de bom senso, concorda com os exageros cometidos que levam à configuração do Estado ausente para evitar, em nome de uma paranóia, o Estado onipresente, ao gosto de Stalin, cujo aniversário de morte foi ontem comemorado.
O caso Olvepar não significa que tudo o que se dava na Copel era da mesma padronagem, mas revela uma frouxidão sistêmica, ditada do poder central, de cima para baixo e tudo acobertado por uma corporação apavorada e ausência de empresários atuantes que denunciassem os riscos daquela orientação. Agora todos são amorosos seguidores da Copel, esquecendo que ela como organização estratégica falhou e muito em toda a sua existência, superprotegida como um estamento especial e hegemônico. Basta lembrar um detalhe: tivemos dois choques do petróleo e não vimos a Copel sair de sua monocultura hidráulica, isso sem falar no envolvimento político da organização como supridora de material para o revezamento dos candidatos do governo no regime militar.
BIZARRICE Papo na Bahia entre Requião e Caetano Veloso na coluna de Mônica Bergamo, ''Folha de S.Paulo''. Ao ser apresentado ao cantor, Requião veio com tudo: ''Conheço você há 30 anos, quando andava com aquela gente rançosa do Jaime Lerner''. Repique de Caetano: ''Lerner foi um ótimo prefeito. Rançoso era o seu pessoal, que o vaiava dizendo que era tudo maquiagem''.
Uma contribuição inegável à autofagia da praça.
AXIOMA Duas chacinas com nada menos de 14 vítimas na Grande Curitiba e Requião continua achando que inibe o crime acumulando a pasta de Segurança.
GLOSA Como alegoria o que é mais inútil: o totem de Lerner ou essa acumulação do Requião na Segurança? Empatam, sem dúvida, na inocuidade. Ambos os casos se ajustam à visão carnavalesca, ambos por tentarem substituir o autor.
EPIGRAMA Curitibanos não dormiram no Carnaval. O silêncio os agredia.
FOLCLORE Agora, além da moratória dos débitos do Estado, teremos outra: a do Carnaval, na Assembléia Legislativa, com as cinco CPIs.
CROMO Na igreja, aposição de cinzas, o padre vê confete no cabelo do fiel.
AFORÍSTICO E que tal se a CPI federal sobre o Banestado colocar mal todos os governantes do Paraná? Seria a obra prima do sado-masoquismo e da autofagia.

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