Lembrai-vos de Montoro


Quando Franco Montoro, na vitória espetacular do PMDB em 1982 nos governos estaduais, assumiu São Paulo, a sua preocupação maior era desvendar as já folclóricas rapinagens do seu antecessor, Paulo Maluf. Ao cabo da tarefa quase passou um certificado de honestidade ao hábil populista, de quem tanto se fala e pouco se prova, ainda que a presunção negativa persista.

Todos esperavam que Roberto Requião viesse com o mesmo impulso e até agora há apreciável soma de suspeitas, algumas descobertas relevantes como sumiço de grana que a Copel devia ao governo, apuração da utilidade das terceirizações, supostas traquinagens no Porto de Paranaguá e na área de Comunicação Social, mas tudo meio vago, sem comprovação clara. Obviamente, sacanagens há como as teremos no governo Requião. Tudo, porém, mesmo aquela mais do que razoável ruptura contratual com agências de propaganda (certamente substituídas pelas dos mais próximos, como sempre se dá), sujeita a chuvas e trovoadas porque passam, necessariamente, pelo crivo da Justiça.

Algumas das providências vinham sendo tomadas pelo Ministério Público Estadual como a das apurações da Detroit Diesel que não são exatamente como eram imaginadas se verdadeiras forem as afirmações do escritório Gionédis, da esposa do ex-poderoso secretário da Fazenda e figura maior do governo Lerner durante muito tempo e antes de ligar-se na bola do futebol, como cartola. Tudo isso é mais do que válido e necessário, desde que não se transforme em foco principal.

A decisão de rever contratos como os das parcerias da Copel, das estradas pedagiadas e até mesmo o do monopólio das contas oficiais pelo Itaú, essa decorrente do processo de saneamento do Banestado, pilhado por múltiplos governos ao longo do tempo, é também pertinente desde que juridicamente viável, o que parece não ocorrer na maioria dos exemplos.

Em São Paulo, quando da aquisição do Banespa pelo Santander, havia um trunfo com o órgão financeiro ''Nossa Caixa'' que teria capilaridade e eficiência para responder, de forma gradual, pelas contas públicas. Quem o faria por aqui? Bancos oficiais como a Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil com saturação de clientelas e de procedimentos de uma lentidão intolerável? Ou seria a imaginária Caixa Econômica estadual, aspiração de Requião, uma fabricante de moeda como todos os bancos provinciais, e ainda mal incubada na mente dos burocratas e capaz de minar todo o esforço de estabilização fiscal?


BIZARRICE Segundo Eduardo Schneider, a ida do Doutor Rosinha a Bagdá pode ter fornecido ao Colin Powel a prova de que o Iraque está ligado à Alcaeda. Com aquela barba taliban no meio dos bigodudos daria para presumir. Algo tão nítido como um albino na galera do Maracanã.


AXIOMA O Chico Ferramenta, prefeito petista de Ipatinga (MG), estava desaparecido e isso inquietou os partidários que não esquecem dos casos de Campinas e de Santo André. Até o presidente Lula pediu providências à PF. O Chico estava com duas mulheres num hotel por mais de 60 horas. Big Brother virtuoso. Aí, meio constrangido com as explicações a dar à esposa, pediu licença.


GLOSA Quem no PT não rezar conforme a cartilha do governo no Congresso será advertido e até expulso: o cartão vermelho vira símbolo da direita.


EPIGRAMA Até aqui tudo bem a onda é boa, mas quando o governo começa a surfar?


FOLCLORE Requião quer cortar um ''Itaú de vantagens'' com essa história do monopólio das contas. No primeiro governo, Requião dizia que o Banestado era um banco sem banqueiro. Foi profético: o banco quebrou.


CROMO A borboleta papaná, multicor, transmuda com o movimento das asas: azul metálico e cinza prata, andamento é ébrio no fulgor da mata.


AFORÍSTICO Após o desarmamento no assentamento de Ramilândia foi possível ontem no Centro Comunitário a primeira de uma série de audiências promovidas pela Ouvidoria Agrária Nacional para buscar o consenso entre as partes.

mockup