O inspetor Javert em ação


Com a reedição, aliás riquíssima sob o aspecto gráfico-editorial, de ''Os Miseráveis'' de Victor Hugo dá para lembrar da figura do Inspetor Javert, o implacável perseguidor de Jean Valjean. Essa obstinação física para a denúncia e a punição aureola hoje, mais do que em qualquer tempo, o Ministério Público.

Algumas figuras, de tanto se envolverem, no atendimento dessa demanda do povo contra a impunidade, tendem até a se transformarem em caricaturas delas próprias, como se dá com alguns dos integrantes da carreira como o guerreiro Luiz Francisco, o desencadeador-mor da devassa da fraude do painel de votação eletrônico do Senado e que derrubou cabeças coroadas da vida brasileira. A frustração seguida da opinião pública diante da impunidade leva a exageros com uma espécie de Lei de Linch (linchamento) a ocupar a mente da maioria e a fixar um perigoso clima de caça às bruxas.

Abertas as ''caixas-pretas'' do Estado, o Ministério Público passa a agir como nos casos da multinacional da Detroit Diesel na qual o governo deu quase R$ 10 milhões para receber 10 anos depois apenas 43,59% do que aplicou por haver liberado, ilegalmente, a empresa beneficiada de juros e correção monetária. Dá para imaginar quantos benefícios do gênero foram concedidos sem que a nossa sociedade, até por falta desse exercício cívico, emitisse um protesto.

O pior é que esses abomináveis protocolos e contratos, que confirmam uma capitulação infantil diante de investidores poderosos, tal como se deu também com as automotivas, estão bem amarrados juridicamente e a única sanção é a decorrente do barulho das denúncias e da disposição do Inspetor Javert ir muito além dos esgotos de Paris para chafurdar na lama pegajosa dos bastidores da política e do mundo empresarial.

Se nada acontecer com as beneficiárias que ao menos se desmistifique a empulhação da expansão industrial do Paraná feita de concessões paternais incabíveis no mundo da competição e que se faça, com o maior rigor possível, o julgamento de quem as proporcionou, enquanto empresas da terra sucumbiam por ausência de um mínimo de apoio.


BIZARRICE Diante de exemplos como o da Detroit Diesel e tantos outros é que se entende porque Curitiba é, pela terceira vez, a melhor área para investimentos no Brasil, conforme aquele levantamento da revista ''Exame''. Somos ''os patos''.


AXIOMA Mobilizar 200 PMs, usando helicóptero e bloqueio de estrada, para apanhar apenas quatro armas em Ramilândia. Se fosse usado um arauto para anunciar a operação e não os meios de comunicação o resultado seria melhor.


GLOSA Para atender 22 municípios da Região Metropolitana polarizados por São José dos Pinhais (população de 1 milhão e meio de habitantes), o 17º Batalhão da PM, conta apenas com 720 homens. Carece de três vezes mais, no mínimo.


EPIGRAMA Há quem diga que pior do que as concessões de Lerner seria um governo destituído de qualquer idéia e incapaz de sair da tempestade verbal.


FOLCLORE Tortura contra homem comum, que é a mais constante, não tem o charme da exercida por motivo político, mas é por ser mais costumeira a que merece maior atenção. A denúncia de violência para obter confissão na marra na Furtos e Roubos volta a motivar o tema. Espera-se que o governador e o secretário de Segurança, já que são a mesma pessoa, tenham ponto de vista comum quanto à condenação do método. Ademais aparecemos no ranking nacional da tortura.


CROMO Te olho, Maria, de viés, de esguelha e de soslaio, perfil e frontal, côncavo e também convexo, e a contemplo na névoa rósea da delicada blusa.


AFORÍSTICO Se o governador deixar ao Ministério Público a tarefa de todas as denúncias, livra-se da presunção de estar retaliando e tende a postar-se como um magistrado com o distanciamento adequado.


SCAPS O pior seria a ''banda podre'' aparecer na parada de sucessos.


OPS Seremos melhor civilização quando dependermos menos do governo. E isso é algo que limita até o nosso empresariado que ama demais o poder.

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