Fome e ''aparelhamento''


Não há uma só pessoa de bom senso que não veja aspectos assistencialistas no Programa Fome Zero de Lula. Respondem os petistas que a ação é estrutural porque abarca aspectos educativos como o da alfabetização, a dietética, mas tambem de mobilização social, obviamente promovida pelos tais comitês gestores que podem lembrar em muitos aspectos os ''sovietes'' e comissários do povo.

Esses núcleos passariam a orientar, dar as dicas, vetar, policiar e exercer aquele autoritarismo primário (nada de iogurte e achocolatados para quem tem fome; abaixo o chicle de bola e a maria-mole) e com isso dominariam os nichos de pobreza em substituição aos ''coronéis''. Felizmente, a dinâmica interna do Partido dos Trabalhadores é que o salva. Ainda que isso possa entusiasmar os interessados no proselitismo haverá os defensores da boa doutrina que haverão de se insurgir contra essas formas de manipulação.

Haverá sempre uma fronteira tênue entre a atuação de vanguarda, a mais bem intencionada para conscientizar e politizar, e o deslumbramento populista da caça compulsiva aos votos em cima de trocas de favores. Ao trabalhar nesses núcleos do miserável e do lúmpem, o PT desloca o eixo de suas conquistas em cima das classes médias, seu patrimônio maior como também do processo de desenvolvimento brasileiro. Qual a diferença que haverá entre um militante do PT e os nossos vereadores assistencialistas na medida em que reduzam o foco de sua atuação?

A causa, ironicamente, pode empobrecer o partido e torná-lo muito próximo das tradições fisiológicas das legendas conservadoras, até aqui, pelo menos, tidas como antípodas de tudo o que o lulismo representa.


BIZARRICE Quem afirma que o paranaense é tímido é porque não leu ainda a reportagem da ''IstoÉ'' sobre a atuação do Banestado em lavagem de dinheiro.


AXIOMA Outro clichê, arquétipo, sobre o paranaense, vai ser testado: quando vai começar a ''entrega'' dos que usaram o setor de câmbio do Banestado, via agência de Nova York e Ilhas Cayman? É preciso que a autofagia funcione, que aí seria extremamente meritória.


GLOSA Quando o PT era minoria se tornava bem mais exigente: Pedro Tonelli e o Doutor Rosinha não deixariam de denunciar essa história de que cada deputado despende, com gabinete e vantagens, R$ 54 mil. Será que se tornam adiposos como aqueles que combatiam? Tadeu Veneri diga ''presente''.


EPIGRAMA A explosão do ônibus espacial Colúmbia é uma aberta contestação, não a primeira certamente, à infalibilidade ianque.


VINHETA Mais uma vez ficou demonstrado que torcida organizada é gangue.


FOLCLORE Sábado, Boca Maldita, o governador Requião se dirige ao empresário Carlos Coelho, dono de loja de artigos masculinos de alto padrão, e pergunta se ele fatura até R$ 180 mil por ano. Vendia o peixe do seu recente decreto de imunidade tributária como se soltasse foguete e corresse atrás da varinha.


CROMO E essa irradiante visão de quem acaba de sair do banho, fresca e original, até quando permanecerá mais do que um perfume? Se Marcel Proust a visse estaria eternizada na busca do tempo perdido.


AFORÍSTICO Respiremos fundo para sentir o odor próximo da guerra.


SPRAY Chuncho dos fiscais do Rio foi descoberto por procuradores da Suíça e pelo jeito as transas do Banestado com lavagem de dinheiro ficarão por conta até do FBI. - Como as coisas do poder público mais ocultam que revelam será difícil saber tudo da história do Caixa 2 em Curitiba ou o destino daquela venda das ações da Sercomtel para a Copel. - O doleiro Youssef, aquele que aparece em amarras políticas de Londrina e Maringá, é personagem forte das denúncias publicadas na ''IstoÉ'' sobre lavagem de dinheiro.


SCAPS Deputados têm cota de R$ 54 mil, cada um, para fazer o mesmo papel de sempre: ratificadores do Executivo, ''vaquinhas de presépio''. Que fim levou a indignação santa dos exaltados petistas e peemedebistas?

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