LUIZ GERALDO MAZZA
O cofre da netinha
O cofre de cerâmica de uma criança que guarda suas economias é no seu imaginário algo muito próximo do pote de ouro no fim do arco-íris. Ao ver a sua avó torturada por delinquentes encapuzados e que pretendiam levar os haveres da família, a menina apostou no lado mágico, tal qual um ícone religioso, oferecendo aos bandidos o cofrinho como se o gesto fosse capaz de detê-los e salvar os familiares. Pois eles mataram a avó, agrediram seus filhos e ainda levaram as moedas.
Não se trata de realçar o dado melodramático, trágico, até chapliniano para mostrar o nível de embotamento dos criminosos. Muita gente acredita que chamando-os dos mais duros adjetivos que traduzam perversidade e a ausência de qualquer sentimento de piedade a execração verbal seria suficiente para recompor a ordem violada. Também não tem sentido restabelecer aquele debate inócuo em torno da pena de morte como a única saída para esses crimes. É que a existência da pena capital não tem força de intimidação suficiente para conter a compulsão criminosa.
Estamos nos desumanizando com a banalização da violência. Aceitamos de tal forma esse convívio como se fosse necessário e indesligável do viver social que dentro em pouco também, como se estivéssemos contaminados por essa fúria, não teremos lágrimas para expressar a nossa comoção diante da menina que entregou o seu cofrinho para tentar salvar a vida da avó. O Paraná está mergulhado na violência. Ela não está apenas no Alto Boqueirão, onde se deu essa tragédia. É a constante de Londrina, de Ponta Grossa, do nosso Litoral nas férias, de Jaguariaíva surpresa com a violência que degrada e jamais moderniza ou atualiza. Enfim, em toda a parte. E não contamos com qualquer dispositivo, governamental ou comunitário, para deter essa marcha ao abismo.
O décimo latrocínio do ano, precedido de uma hora de tortura na vítima, é impacto demais para que se subestime o que está acontecendo. Dona Luiza Hedman, uma vida de permanente doação, era militante evangélica e que atendia hospitais e grupos de terceira idade. Sua atuação se espalhava por amplos espaços da Região Metropolitana. Milhares de pessoas estavam à tarde de ontem no guardamento no templo da Assembléia de Deus no Jardim Castelo Branco. Na morte mais doação: seus órgãos foram retirados para transplantes.
BIZARRICE A cada governo que se instala há uma aura sugerindo que tudo se resolverá. Lula está cada vez ficando mais parecido com o seu antecessor e já avisou que a tabela do Imposto de Renda está congelada. Aqui a área ambiental do governo Requião está comunicando que a água do Iraí volta a ter cheiro e cor com o retorno das algas.
AXIOMA Nunca tantos factóides marcaram a rotina do Brasil e do Paraná. Fome Zero é o campeão absoluto, mas as estradas alternativas ao pedágio por aqui não ficam muito distantes.
GLOSA As promessas dos governantes estão muito parecidas com as atrações dos clubes de futebol para o início da temporada.
EPIGRAMA O deputado Bradock decorou o seu gabinete legislativo com as insígnias do seu uniforme de Rambo. Camuflar gabinetes num Legislativo é, antes de tudo, pura redundância. Tudo por ali é mimetismo. Dá para percebê-lo nas articulações de agora para a eleição da mesa.
FOLCLORE Cúpula do PT baixou o sarrafo nas primeiras ações do governo Lula. Marta Suplicy, a prefeita de mais baixo ibope nas capitais, foi uma das mais veementes. Os argumentos vinham em catadupas como se fossem as águas sórdidas dos rios Tietê e Tamanduateí afogando São Paulo.
CROMO Ressurreição: a larva se faz ninfa e borboleta e esta, mumificada, asas presas por alfinetes, repousa na coleção do entomologista.
AFORÍSTICO O abracadabra, que solucionaria todos os problemas nos governos federal e estaduais, já foi proferido, mas os fatos continuam mais fortes e estruturados do que as supostas intenções de enfrentá-los. Pior para os fatos, diz com ênfase o governante delirante. Revogue-se a realidade.
OPS Entre Davos e Porto Alegre o coração pendular de Lula oscila.
SCAPS Curitiba está com o lixão esgotado, mas continua ecológica.





