LUIZ GERALDO MAZZA
Na praia as raízes
Baudelaire afirmava que o homem ia ao campo para reconstituir a cidade. Hoje é inútil buscar outra coisa a alguém que tenha se deslocado à praia porque essa se descaracterizou tanto que nada tem da anti-urbe que o arquiteto Rubens Meister chegou a imaginar em favor da Ilha do Mel. A praia é urbana em todas as suas mais marcantes deformações desde a agressão do corsarismo imobiliário que em Camboriu é de uma estupidez piramidal e que no litoral do Paraná se dá em escala menor, mas igualmente comprometedora.
Mas hoje não vou falar da praia (estive em Bombas, com menor nível de patologias do que Bombinhas, mais mítica em Santa Catarina), mas das leituras que fiz por lá: duas obras de ficção De como se fiz por si mesmo de Jamil Snege e Terra Vermelha de Domingos Pelegrini, e uma, documental, com os discursos de Bento Munhoz da Rocha Neto como deputado federal na coleção dos Perfis Parlamentares.
JAMIL E FELINI Jamil Snege é um escritor incomum, trata o texto como um escultor sem ter apego ao ornamental. Novela autobiográfica (isso é sempre um risco, pois a despeito do processo auto-analítico toda confissão merece aquela advertência de Fernando Pessoa de que ninguém expõe a própria fraqueza, a sua pusilanimidade) e que abarca o seu universo cotidiano, do familiar ao profissional, com incursões fantásticas ao lirismo do tempo da infância como a referência aos mistérios do campo de futebol com os seminaristas de batina flagrados em seu mundo privado a dar balões e embaixadas atrás da Igreja do Sagrado Coração de Maria ou as abluções na Água Verde na Bucetinha, um riacho que merecia o topônimo por lembrar, ao olho infantil, a genitália feminina. O fato de carregar a narrativa com o prosaísmo da vida provincial, os rituais de sua ação como publicitário (o Dinho Pelegrini também o é) e a referência nominal a gente da terra não retira da obra o vigor de um depoimento que me fez lembrar do cinema de Felini entrecortado de vivências que vão de Rimini a Roma e que se repete, com a riqueza e o espanto do novo, em Os Boas Vidas, Doce Vida, Oito e Meio, A Estrada e tantos outros.
O MURAL PIONEIRO Antes de Pelegrini tivemos a incursão de Elias Farah na descrição da saga pioneira em contos e romance como Terra Roxa. Mas Terra Vermelha é extremamente rico e mesmo alguém não familiarizado com Londrina há de identificar as figuras que transitam naquele mundo em construção e com os nomes ligeiramente alterados como o do maior arquiteto paranaense e dos maiores do Brasil, Vilanova Artigas, indicado como o marxista-leninista Urtigas. E assim com os nomes de Garcia, Hosken de Novaes, João Saldanha com seu envolvimento na guerrilha de Porecatu, profissionais liberais, líderes operários e os próprios Pelegrini nominados Pelerini e até o geólogo Reinhard Maack aparece fazendo medições de campo na bacia do Tibagi, um mural denso e severo como documento enriquecido pela transfiguração literária.
Apesar do título provocativo da obra de Jamil Snege, tanto esse livro como o de Pelegrini se ligam ao trabalho, ao homo faber, sem desprezo da fantasia e da exasperação do homo ludens, do jogo e do lúdico. Pelegrini, mais apolínio; Snege, mais dionisíaco.
BENDITO BENTO Se essa leitura mostra que temos romancistas com expressão nacional (e há ainda o Noel Nascimento de Casa Verde e a seqüência de Cristovão Tezza), a viagem pelos anais parlamentares e a oratória de Munhoz da Rocha leva a um sentimento de frustração por não contarmos, à exceção talvez de Gustavo Fruet, com um deputado capaz de merecer a audiência do Brasil em termos de inteligentzia e cosmovisão, uma contribuição que mereça evocação e crie, no campo da filosofia política, a sensação do orgulho da raiz, a mesma que se desfruta diante da obra de Jamil Snege e de Domingos Pelegrini.
Leio pouco. Muitos livros deixo-os nas primeiras páginas e isso aconteceu com Joyce e não era o complexo de Ulisses e de Finnegans Wake. Desculpa que sempre tenho à mão quando alguém me envia uma obra que não leio. Se Joyce foi deixado de lado por que não outros, nem sempre tão celebrados?





