Estatísticas negativas

Uma das deficiências do governo estadual é não ter um plantão ideológico e sociológico nas condições do ex-secretário Miguel Salomão. Este, mesmo quando encarava um indicador negativo do IBGE, tinha condições para discutir em alto padrão técnico e propor mudanças de metodologia com a cúpula do sistema. Claro que entre as pessoas bem qualificadas da equipe estão, entre outros, Eleanora Fruet, do Planejamento, e Heron Arzua, da Fazenda, capazes de decodificar os mistérios desses dados, às vezes semanticamente esotéricos.
Requião manteve o hábito de todos os seus antecessores, o de surfar nas ondas do triunfalismo. Criou um teaser ''Paraná, o Brasil que deu certo'' bem na linha de tantos outros. Uma ocasião o desempenho industrial do Paraná foi excepcional em relação ao mês do ano anterior. Fez um foguetório em cima daquele feito sem submetê-lo a uma análise mais rigorosa. O PHD Judas Tadeu Grassi Mendes me mostrou com dados seguros que o incremento decorrera de uma anomalia: no mês de referência do ano anterior havia ocorrido uma greve na Petrobras de longa duração e o nível de ponderação não apenas no conjunto da economia como especialmente no setor químico desequilibra. Razão, enfim, para um ''feito'' que não tinha as dimensões imaginadas.
Aqui no Paraná e Curitiba a dupla Lerner-Taniguchi desliza na maionese dos slogans (''a transformação que você vê'', Cidade Ecológica, Capital Social) e volta e meia leva um direto na mandíbula como na recente publicação do IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, em que aparecemos em quinto lugar como estado e em abaixo de vigésimo com a capital entre as cidades. Outro dia saiu um estudo na ''Gazeta Mercantil'' mostrando que Campinas é o segundo pólo industrial do Brasil (perde apenas do ABCD paulista) com um valor acumulado de sua produção em 90 municípios de R$ 25,3 bilhões, 9,9% do total nacional. O Paraná, que vivem oficialmente a dizer que superou os gaúchos, aparece em sexto com R$ 14,6 bi, 5,72% do total nacional, bem abaixo do RGS (R$ 21 bi), RJ (R$ 24,1 bi) e MG (R$ 24,2 bi).
Se não tivéssemos uma cultura de subserviência extrema à informação oficial e nos dedicássemos a um mínimo de exercício crítico os marqueteiros não teriam espaços para esses vôos que apenas desservem a democracia e inoculam em todos o pior dos virus, o do conformismo. Ainda bem que o atual secretário da área, o Airton Pissetti, defendeu a mídia crítica. Desde já sou um colaborador.
BIZARRICE Depois dessa série global ''A Casa das Sete Mulheres'' sobre a saga Farroupilha só falta o Grêmio e o Inter disputarem a final do brasileiro para a gente não tolerar a proximidade dos nossos irmãos gaúchos, pilchados ou não, tal o seu orgulho e autosuficiência. A vacina é a piada contra eles.
AXIOMA Ligou para o 102 da BrasilTelecom pedindo informações sobre aparelhos de São José dos Pinhais. A atendente nada sabia como se se tratasse de uma cidade distante e não geminada com Curitiba.
GLOSA Rodovias concedidas no Rio Grande do Sul (12 mil entrevistas) tiveram aprovação de 90% nos serviços oferecidos. Uma pesquisa da CNT, Confederação Nacional do Transporte, deu notas altíssimas ao desempenho do sistema e as do Paraná foram consideradas as melhores do Brasil. Não deixa de ser uma lombada na trombada que o comboio de Requião pretendia dar no sistema.
EPIGRAMA Nada como um governo depois do outro. Primeiro para reprovar e depois para prometer desbragadamente.
FOLCLORE Num depoimento a um programa de história oral (está arquivado no Canal da Música) o falecido Riad Salamuni conta que, quando estudante, em acampamento com o mestre Reinhard Maack (este é referido no livro do Dinho Pelegrini ''Terra Vermelha'') o surpreendeu com uma forquilha procurando água e estranhou que adotasse postura tão pouco científica. Maack teria respondido com seu jeitão humilde: às vezes dá certo.
CROMO Ave Maria, cheia de beleza, aqui ao meu lado, editando os meus textos, sem poder corrigir minhas orações, as pensadas, não escritas.

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