Os ares novos

Afora o abrangente clima de esperança, muito próximo do messianismo, que cerca o governo Lula, nada há de extraordinário, na União e no Estado, para assinalar fatos novos. Ao lado desse fator psicossocial de primeira grandeza há um ganho na reação do mercado, altamente favorável e que explica a queda do dólar e simultaneamente do risco Brasil.
A doutrina, de um modo geral, é muito semelhante à do governo FHC quanto ao cumprimento de contratos e às regras de austeridade fiscal. Numa deformação, os dois governos, o federal e estadual, são extremamente parecidos: a elefantíase da máquina pública expressa na Arca de Noé ministerial para acomodar facções e apoios e repetida aqui, seguindo a lição de Lerner que manteve uma estrutura secretarial de trinta unidades. Afora os riscos de dispersão de recursos há ainda fenômenos de paralelismo e superposição de órgãos, regras francamente contornadas pela compulsão em acertar espaços aos aliados.
Aqui no Paraná Requião repetiu o comportamento adotado no seu primeiro governo, quando adotou uma espécie de minimoratória com a suspensão por três meses dos pagamentos a fornecedores e prestadores de serviços. Seu antecessor, Alvaro Dias, e que garantiu a sua eleição ao permanecer no Palácio, abrindo mão de sua candidatura ao Senado, fazia proclamações nacionais em torno da estabilidade financeira do Estado, mas nem isso foi levado em conta sob a alegação de que era preciso ter uma idéia mais nítida da situação.
Se com um aliado a medida foi adotada, não seria de espantar que ela viesse a ser aplicada em relação a um antecessor notoriamente adverso. Lerner não deixou interlocutores habilitados a responder ataques que já eram esperados por parte do novo governo e, anteontem, como não houve resposta, prevaleceu o informe de que não pagou R$ 89 milhões devidos à União e Bird quando a versão dominante era a de que o Paraná se encontrava com suas finanças com a saúde de vaca premiada. Essa falta do contraditório, essencial ao processo democrático, se prevalecer, em nada favorecerá a sociedade.
BIZARRICE STF desbloqueou o ICMS do Rio e mostrou ao governo Lula, que era o interessado em função de inadimplência daquele estado com os cofres da União, como é complicado operar na mecânica institucional. Muitos projetos de FHC foram mais fulminados pelo Judiciário do que pela oposição.
AXIOMA Requião prometeu um choque de capitalismo na mídia. Os veículos querem saber onde se encontra o capital porque aquela contribuição que vinha do poder público atrofiou dramaticamente e isso é bem melhor do que a tutela anterior.
GLOSA A praia de Matinhos quando não é açoitada pelo mar (ressacas) sofre com as enchentes produzidas pelas chuvas. A culpa, segundo políticos, é da Sanepar que tanto privatiza que acabará fazendo dos balneários uma privada.
EPIGRAMA Por falar em privatização, Requião declarou, ontem, em rede nacional na CBN, que no Paraná Lerner tudo privatizou e até as máquinas fotográficas do setor de Comunicação Social eram terceirizadas. Os funcionários públicos dos três Poderes ainda não foram privatizados e sempre receberam em dia.
FOLCLORE Se todo carro velho, como o Passat de ontem diante da Copel, olhado como possível peça de um atentado, for visto como suspeito vai reinar a mais absoluta paranóia. Rigorosamente era uma ''bomba'' no sentido figurado.
CROMO E esse vôo de paina - a serenidade do sono de criança no suave balançar no espaço azul - na tarde de sol é um corte epistemológico no ruminar mental.
AFORÍSTICO Diminuir as qualidades eventuais do adversário e exaltar as próprias, submetendo-as a uma lupa, é um hábito indesviável de todo aquele que chega ao poder. O duro para o público é suportar essa falta de imaginação.

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