LUIZ GERALDO MAZZA
Ubiquidade e ambiguidade
Há governadores que se imaginam, pela irradiação da liderança, como uma versão terrena de Deus, capazes de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Seria o caso de um governante que tivesse tal grau de confiança nos seus auxiliares - secretários, diretores e assessores - que dispensaria o seu olho fiscalizador e pessoal, coisa que Manoel Ribas jamais faria. Pois Requião entrou nessa doutrina e considera a situação da Segurança de tal gravidade que está disposto a assumí-la conjuntamente com as funções de governador.
Como essa disposição já foi anunciada várias vezes ficaria mal para ele, próprio, se não a adotasse logo no início de sua gestão. Não há como interpretar essa decisão por outra via que não seja a da intimidação de caráter psicológico: coloca o Adauto, que é um paradigma, como delegado geral, e deixa vazia a cadeira de secretário como se nela estivessem os mil olhos do Doutor Mabuse da ficção.
É óbvio que a simples enunciação de uma nova ordem é insuficiente. E vai ser preciso baixar alguns éditos como o do afastamento de policiais que tenham processos de sindicância ou administrativos. Isso esbarra nos dois âmbitos: o administrativo, ao qual os prejudicados podem recorrer, e o judicial, este mais vigoroso para reafirmação de direitos e remoção de falhas processuais.
A banda de música vai apoiá-lo da mesma forma que o fez, e de forma a mais deseducada, na cerimônia de diplomação, algo que não se vê nem em circos ou estádios de futebol, em que há pelo menos um pouquinho de racionalidade. Não serão aplausos ao chefe de plantão e vaias nos adversários que cumprirão o que foi prometido. Lembremos as prioridades: dar leite, luz e água de graça para os mais pobres; uma limpeza radical na polícia; devassar todos os segredos das várias ''caixas pretas'' (protocolo das montadoras, chunchos do Banestado e da Copel); recuperar a estatal de energia e fulminar as parcerias contratuais e, sobretudo, baixar na marra as tarifas do pedágio ou anular os contratos.
Vai sobrar espaço para ambiguidades e rarear para a ubiquidade. Estar em todos os lugares ao mesmo tempo só no Gulag soviético.
BIZARRICE Requião anuncia o fim do neoliberalismo e Lula vai manter a linha da política monetária e fiscal de FHC e a equipe do Banco Central. Alguém está blefando ou todos estamos sendo blefados.
AXIOMA O governador acumulando função de secretário de Segurança é também tão alegórico e virtual como o tótem do Lerner. Imobilismo simétrico.
GLOSA Juramento para presidente do Banco Central.
-O senhor jura fazer tudo para controlar a moeda e o crédito?
-Juros.
EPIGRAMA De uma coisa podemos estar certos: o coronelismo, com Requião no governo, está com os dias contados. Ele não confia em nenhum coronel da PM.
Imaginem se o Lula agisse assim com os generais no Exército. É uma referência para os que achavam o presidente eleito um radical.
FOLCLORE O pessoal do século passado era mais criativo do que Lerner. Tanto que quando abriram a Estrada de Mato Grosso, que pega a rua XV e a Vicente Machado na direção do Batel, chamaram a atual Praça Osório de Praça Oceano Pacífico. Era a alegoria do Caminho do Peabirú que ligaria os dois oceanos.
CROMO E quando faltam alegorias para o amor como fazê-lo se constrange declamar o verbo na primeira pessoa?
AFORÍSTICO Campinas, 2º pólo industrial do Brasil com valor de produção de R$ 25,3 bilhões, só perde para o ABCD. É com seus 90 municípios 9,9% do Brasil. Seguem, na ordem, segundo ''Gazeta Mercantil'', Minas com R$ 24,2 bi, Rio de Janeiro com R$ 24,1 bi, Rio Grande do Sul com R$ 21,2 bi e o Paraná com R$ 14, 6 bi, 5,72% do Brasil. Como o Miguel Salomão, do Planejamento, não está mais aí não teremos contestação. Mas isso não contém o triunfalismo e muito menos a manipulação crônica de indicadores pela orquestração governamental.





