O caramujo da pobreza


Não chega a espantar o fato de terem sido assinalados vários casos de infestação por esquistossomose em Londrina, a despeito de haver no segundo maior pólo urbano do Paraná uma densa rede de atendimento primário à saúde. Questões de saneamento básico exigem uma rotina, sem ela é inevitável uma ruptura do equilíbrio obtido, como se deu em Paranaguá com a incidência de cólera ainda no primeiro tempo da gestão lerneriana.
Quando existia o DNERU, Departamento Nacional de Endemias Rurais, depois substituído pela Sucam, que tratava em forma de campanha sistemática as ações nessas doenças de massa, havia um pleno conhecimento, mapeado inclusive, das regiões do Paraná em que predominavam casos de esquistossomose, doença de Chagas e tantos outros. A esquistossomose, cujo vetor é o caramujo Bimphalaria Glabrata (o nome anterior, lembro, era Tapius Glabratus), se dá justamente em áreas insalubres, de baixas condições de saneamento, como os riachos, em que aparecem crianças nadando, na periferia de Londrina.
O ideal nas endemias é a prevenção, tanto na esquistossomose quanto na Doença de Chagas, também de registros fortes no norte pioneiro. Tenho na família um caso surpreendente: um primo meu, dublê de médico e cientista, Alberto Accioly Veiga, surpreendeu, em seu apartamento em Caiobá, um ''barbeiro'', vetor da moléstia chagásica. Isolou-o com um cálice e mandou-o a exame. Embora a frequência de casos positivos em centenas de exemplares seja remota havia a infestação. Seguiu-se uma verdadeira cruzada para detectar as origens da cadeia epidemiológica, localizada na associação com gambás da região.
Em Curitiba, no antigo IBPT, Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas, um dos cientistas que estudava os moluscos se descuidou e alguns deles, saindo pelos ralos do laboratório, acabaram caindo num braço morto do rio Belém. Lembro que equipes do DNERU fizeram borrifações intensas de moluscocidas para o combate indiscriminado. Como esses fatos a que estou me referindo ocorreram há mais de 40 anos dá a impressão de que nada evoluímos em termos de medicina básica e engenharia sanitária.
BIZARRICE O jornalista Freitas Netto, que faz hoje oitenta anos, está na sua mesa de secretário de ''O Estado do Paraná'' atendendo, na condição de presidente do sindicato dos jornalistas, um emissário da federação da categoria. Era Antonio de Paula Filho, que virou delegado do Trabalho e que falava com a língua presa, que nem o atual time do PT, e se referia ao Jocelyn, oficial da Aeronáutica e jornalista de esquerda. Ele pronunciava o Jocelyn com rigor Jo-ce-lan. Na primeira interrupção, Freitinhas, sem tirar os olhos do texto que corrigia, tascou ''Pois san'' para colocar um ''Pois sim?'' afrancesado como exigiam a ocasião e o trocadilho.
AXIOMA Ao preferir Waldyr Pugliesi a Orlando Pessuti para Transportes Requião dispensou a diplomacia do mais gordo em favor da rudeza do mais magro.
GLOSA O governador eleito foge do assédio dos pretendentes a cargos, mas adora dossiês como o do pedágio com especulações sobre planilhas e dos protocolos das montadoras, como o da Renault. Uma vergonha na base do dá ou desce.
EPIGRAMA Pior será Requião na Segurança sentir-se, de repente, de mãos atadas.
FOLCLORE O jornalista Nireu Teixeira vai visitar o Freitas Netto que dirigia a Imprensa Oficial. E aí faz a observação inevitável para os anos de chumbo: ''Você não tem medo de ser preso publicando tudo do governo, concorrências, dispensa de licitações? Esse é o único jornal de oposição.'' Acrescentou o Freitas: ''e sem necessidade de redator!''
CROMO O rio tem cor de azeite e o poço mais fundo o encantamento da morte.
Flutua nas águas um pão com uma vela acesa que apontará mais um afogado.
AFORÍSTICO Dá para imaginar se o Lerner sai e começa a atrasar salário.

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