LUIZ GERALDO MAZZA
Boca Maldita e as ''pedras''
É tempo de falar na e da Boca Maldita em função do seu jantar anual e da posse dos novos cavaleiros. É fundamental que esse ponto de encontro da Capital e que acabou criando tantos outros no interior do Paraná e também do Brasil não se leve muito sério e nem se solenize demais o que soaria claramente como uma antinomia. Sempre fui contra ''institucionalizá-la'' como era e sempre foi a intenção do seu presidente vitalício Anfrísio Siqueira e que acabou, em consequência disso, ganhando até uma rádio comunitária.
A Boca, no meu entendimento, em nada se diferencia das chamadas ''pedras''(é assim que as denominam as pessoas do Norte) de Londrina, Maringá, Paranavaí. Singelamente, e apenas, um ponto de encontro e nada mais. Anfrísio a colocou, com a formalização, nas exigências da sociedade do espetáculo. Quando se acentuou a vinda de gente do setentrião para a Capital (e isso começa com a vitória de Paulo Pimentel em 1965 e se acentua com o ciclo do PMDB com Richa e Alvaro Dias, todos eles cavaleiros) ficou nítido que essas pessoas acreditavam estar diante de uma amostragem de Curitiba naquele espaço físico restrito da Avenida Luis Xavier e seus limites na Praça Osório, Travessa Oliveira Belo, Ébano Pereira e Ermelino de Leão. Lembro do Valmor Giavarina, então deputado estadual, com a camisa do Apucarana, tirando sarro dos ''coxas'', depois de uma vitória de 3 a 0 no Couto Pereira, carregando uma gaiola com uma ave. Era metáfora pelo jogador Passarinho que fizera gols e dera um baile e que depois acabaria jogando no próprio Coritiba naquela formação com outros pés vermelhos como Pescuma, Roderlei, Tião Abatiá e Paquito e mais Carvalho, Coutinho, Kosilek, Antoninho, Servílio.
NUTRIENTES São os tipos populares que justificam esses pontos de encontro. Por isso é de prever-se que com o seu desaparecimento as ''bocas'' irão perdendo substância, especialmente em humanidade. A morte do Bataclan, do Esmaga, da Gilda não foi compensada com o surgimento das ''estátuas vivas'' que acabamos importando da Argentina ou ainda dos ''sombras'', mímicos que imitam os transeuntes, às vezes com péssimo gosto como ao decalcarem deficientes ou senhoras grávidas.
Quem sempre deu o tempero do convívio foi esse tipo de ator indispensável: a figura popular. Essas pessoas desaparecem, tal qual mitos como o de Emiliano Zapata que mesmo depois de morto eram vistos no México. Isso se deu especialmente com a Maria do Cavaquinho, mongolóide, baixinha, que reencontrei numa entidade social da Lapa. Ela marcou uma época no auge de Curitiba como ''Cidade Universitária'' : com seu cavaquinho ou sombrinha, deitava no asfalto da rua XV, então com mão dupla, e imitava os seguidores de Ghandi na resistência ao colonialismo inglês em ''resistência pacífica'', fechando o trânsito e com o apoio absoluto dos universitários que mandavam na cidade.
E a Maria Desenhista, que apelidavam de Indira Ghandi porque usava túnica branca e exercitava arte plástica na rua, de repente sumiu. Como sumiu também a Maria Marcha Lenta que padecia de uma interminável gravidez. E como também volatilizou-se a Mulher de Plástico, uma frequentadora, bem periférica, com jeito alucinado que se vestia de plástico e até dessas fitas de enterro, mais do que funéreas porque roxas. É melancólico perceber que sobraram os chatos como nós que a cultuamos ainda hoje como lugar de ''papo'' e jogo de palito, a ''porrinha'' que ajuda a driblar a morte e o tédio.
A ÁGORA Há quem a considere e o jurista Rene Dotti nos discursos seguidos da celebração anual a isso faz referência um decalque na sociedade massiva da ágora do gregos, a praça das decisões plebiscitárias na Cidade Estado. Houve um tempo em que a ''Boca'' se metia em tudo até no Plano Diretor da Cidade. Tanto que apoiou uma proposta alternativa à do Wilhelm (adotada pela Serete) firmada por dois arquitetos da Boca, Onaldo Pinto e Gustavo Gama Monteiro, e que acabou ratificada pelo Instituto de Engenharia. A visão de ocupação dos espaços, isso é o adensamento demográfico, se dava mais na direção do Boqueirão do que a pretendida pelo projeto vitorioso. Isso ficou mais do que demonstrado. Além disso, as denúncias das negociatas e chunchos públicos que Anfrísio vertia em xerox. Isso também acabou.





