Um jogo de braço

A decisão do governo Lerner de paralisar obras em andamento e não tocar as que ainda não foram iniciadas nos municípios, levou pânico aos prefeitos, mas tem tudo de um jogo de cena para legitimar a correção aditiva no Orçamento 2003 de R$ 95 milhões, até agora combatida pelo grupo de transição do futuro governo. É manobra mais política do que técnica e que obriga a prefeitada a ir em cima dos integrantes da futura gestão e colocar as suas ponderáveis razões.
Graças aos inúmeros convênios, os municípios paranaenses puderam encontrar uma saída para seus orçamentos engessados e com isso ganharam milhares de obras que ativaram as suas respectivas economias e melhoraram as suas condições em termos de desenvolvimento urbano. Claro que Requião poderá também desfrutar desses instrumentos, embora as precipitações como a de suspender as licitações da Sanepar a pretexto de estudar melhor assunto já decidido e que conta com recursos internacionais a juros baixíssimos.
Em consequência de tal conjuntura e diante do bloqueio à proposta aditiva (a essa altura o mesmo Legislativo que foi subserviente a Lerner já se mostra com a mesma disposição diante dos futuros gestores, o que é prova de uma cultura de vassalagem) à Associação dos Municípios do Paraná não restará alternativa se não a de pressionar a falange requianista além de já ter feito a competente ação junto ao Tribunal de Contas como defesa prévia contra o seu enquadramento na Lei de Responsabilidade Fiscal. Bem mais civilizada e competente do que o cerco das praças de pedágio, essa é uma operação que pode ser decidida dentro da mecânica institucional sem forçar barra alguma.
Além de tudo, isso é mais eficiente do que bravata e mexe apenas com a área interessada, os prefeitos, e não a massa difusa de usuários como na demagógica encenação na Br-277 a pretexto de coagir os insensíveis empreiteiros do pedágio quando se sugere que a pressão a todos beneficia. Se for jogo de cena, a operação de Lerner tem mais QI, mais sutileza e menos rusticidade.
BIZARRICE Se Curitiba é assim tão prodigiosa, como sugere o ''ranking'' da Exame, por que empresários genuinamente autóctones perderam seus espaços como Hermes Macedo, Prosdócimo, Móveis Cimo e prevalecem as multinacionais que ganham estímulos não concedidos aos caturras?
AXIOMA Outra coisa: se o mercado é tão rico assim (classe A-B com 42% do total quando a média nacional para o extrato é de 22%) não se entende por que não deu certo o tão celebrado Shopping Estação, um dos maiores do país em lazer.
GLOSA O catador de lixo estava vibrando com a notícia de que Curitiba é a primeira cidade do Brasil para investimento. Só o papel gasto na divulgação do feito já dá um reforço apreciável em matéria-prima.
EPIGRAMA Fui severamente contestado na afirmação de que a esmola seria o Caixa 2 dos pobres. Segundo outra versão mais realista, a esmola é o Caixa 1.
FOLCLORE Sexta-feira, 13, apesar da data aziaga, haverá a tradicional ''boca livre'' para jornalistas oferecida pelo Carvalhinho, da Fiep. E é anunciada assim a boca livre do Carvalho. E na saída o pessoal vai dizer que a festa estava do Carvalho como sempre.
CROMO No chafariz da praça as estátuas de ninfas excitam os meninos de rua que nadam, nus, na água esverdeada: neles escorre uma pulsão do sexo incontido, nelas o azinhavre, aquele tom de morte que avança nos metais.
AFORÍSTICO O Gabeira quer regulamentar a prostituição: o problema é como mantê-la sem caftens, caftinas, gigolôs que vicejam na fauna. Meninas de programa não querem saber de carteira que as identifique e lembram da Capitu, não a de Machado de Assis, mas a da novela ''Laços de Família''.
SCAPS Com o PT, moralista na oposição, vai acontecer no governo o mesmo que se deu com a UDN. História se repete como farsa, lecionava Marx a Hegel.

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