LUIZ GERALDO MAZZA
Ideologia e medo
Curitiba apareceu em pesquisa do IBGE como uma das cidades cuja população tem o maior medo da violência. As três maiores são Porto Alegre, Salvador e São Paulo com 62 pontos (de zero a 100) contra 48 da média nacional. Num segundo patamar aparecem Fortaleza, Belo Horizonte e a nossa mui brava Capital com 61 pontos, seguindo-se Recife com 60 pontos. O Rio, imaginem, está com 56, onde a malha da legalidade já se confunde, de há muito, com o crime organizado.
Sociólogos se debruçaram sobre o assunto e teorizaram à exaustão, mas o índice baixo dos cariocas se explica no convívio de décadas com as mais variadas formas de violência e o de Curitiba talvez pela novidade, ainda não transformada em endemia, dessa patologia comum aos grandes centros.
Há, no entanto, um fator de natureza ideológica para explicar o trauma dos curitibanos que chega a chocar quando se constata que o índice de Vitória, Espírito Santo, cidade aberta ao crime organizado e para a qual já se pensou até em intervenção federal, registra 53 pontos. Trata-se da lavagem cerebral, da primeira gestão de Lerner na Capital para cá, que criou visão idealizada da cidade como modelo e referência, um empenho sistemático na ''construção da realidade'' e que se funda num ambiente que se esgotou como processo urbano no fim dos anos setenta.
Não apenas Lerner, mas todos os gestores que o sucederam (ele, próprio, voltaria por mais duas vezes e com eleição direta) sustentaram essa linha de promoção. Até mesmo Requião, que tentou ser o ''antípoda'' do lernerismo, usava o ''marketing'' do Banestado em escala estadual para ''vender'' uma Curitiba que tinha transporte e comida mais baratos do Brasil, acesso à habitação (urbanização de invasões) e tantos outros ornamentos, menos ligados ao estético, à fruição do prazer nos parques. Assim ajudou, embora com linha mais populista, o que junto aos destituídos é um prato cheio, a criar, como Lerner, um fator adicional e artificial das migrações.
Taniguchi teve o cuidado de não exagerar na linha triunfalista, mas manteve fantasias como a de modelo ''ecológico'' e ''social''. Assim mesmo, sem os claros transbordamentos de Rafael Greca, manteve a onda. Muito disso foi agora desmistificado e é exatamente a crueza da realidade da metrópole que se desumaniza na competição desigual que leva o curitibano médio a se espantar com o sonambulismo da situação. A cidade ideal começa a diluir e aparece outra ainda não habituada com a banalização da violência que a rigor acaba aparecendo bem maior do que é. Aliás, comparar violências de Curitiba com a do Rio e São Paulo é não ter noção de escala e fugir da realidade para amainar a nossa condição.
BIZARRICE Curitiba é a melhor capital para investir do País pela terceira vez em pesquisa da revista Exame. Se existisse a revista Vexame dava para listar a questão do medo da violência.
AXIOMA Quando se diz que Requião não muda de opinião basta lembrar o que ele pensava, em passado recente, do seu hoje aliado Orestes Quércia.
GLOSA Curitiba é também a melhor cidade para o motorista investir contra os pedestres e pederestes e para estes investirem contra os pedestres.
EPIGRAMA Líderes visíveis da greve caminhoneira, Acir Mezzadri, PMDB, fez 4.020 votos para deputado estadual e Neri Tigrão, PT, 12.000 para federal. A via política tem bloqueios mais fortes do que praça de pedágio.
FOLCLORE Deram agora de caricaturar o fato de o governo Lula ser o da língua presa. Aqui no Paraná teremos um da língua solta. Antes isso do que a soma do rabo preso com o rabo solto.
CROMO Meu neto mais novo, Ângelo, vibrando com sua formatura no pré-escola com uma só coisa: a alegria de lançar ao espaço o seu chapéu.
AFORÍSTICO Agora vem aí o ''Disque, Quércia''. Agora a favor para afinal moralizar, de uma vez por todas, o PMDB nacional.





