LUIZ GERALDO MAZZA
No caminho um piquete
No meio do caminho havia uma pedra// uma pedra havia no meio do caminho.//
Ontem, em São Luiz do Purunã, não se pensava, desde as sete da manhã, em poesia no imponderável obstáculo da imaginação de Drummond. Havia um piquete e já anunciado, desde o fim da semana passada, com o evidente objetivo de dar bases logísticas à promessa eleitoral do governador eleito de rever as tarifas do pedágio. Ordens judiciais no sentido de desbloquear a estrada na praça de pedágio não foram obedecidas e a Justiça impôs a intervenção da PM.
Só existe um front em que o futuro governo pode impedir o reajuste das tarifas, a essa altura já calculado: o político. Mas as consorciadas estão seguras quanto à validade dos seus contratos, razão pela qual não temem essas manifestações, a não ser que ganhassem capilaridade nacional e gerassem um tal constrangimento que obrigasse a União a rever as concessões. O grave é que estamos num processo de transição negociado e o governo Lerner tem se mostrado extremamente aberto aos pleitos dos futuros governantes. Essa é, portanto, uma ruptura nos rituais e que está expondo milhares de pessoas e instituições a coações nada aceitáveis no Estado de Direito Democrático.
Os operadores desse processo esquecem de um dado elementar: sabe-se como dar início a essas manifestações, mas nunca se tem idéia de como terminam. Toda ação desse tipo tem uma dinâmica própria e que acaba fugindo ao controle dos que se imaginam em seu comando, normalmente se acreditando o vetor da história. Vide o episódio de Campo Bonito em que os sem terra desrespeitaram acordo com o governador Roberto Requião e ampliaram a área invadida: houve o linchamento de três PMs, vinculados a P-2, que aliás faziam ''bico'' e não estavam em serviço, por parte dos invasores e acabou ocorrendo a perda de controle, tanto de um lado quanto de outro.
A maioria da população é contra a forma como se adotou por aqui o pedágio. O governo paulista, reeleito por sinal, é um dos maiores aplicadores do sistema e não há como aqui tanta bronca. Não dá para comparar a qualidade das estradas paulistas com as nossas, embora recente pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes tivesse afirmado que as daqui são as melhores do País. Não será, porém, na marra que se resolverá a pendência. A intimidação é arma fascista.
BIZARRICE No embate com o pedágio e protocolos das montadoras, Requião lembra um Ulysses mitológico pronto a perfurar o olho da Cíclope que muitos enxergam no NovoMuseu. Os mais prudentes entendem que Requião mal chega a um Ulysses Guimarães, bem distante do herói da Odisséia.
AXIOMA Requião declarou na TV Record que não é candidato à reeleição, embora para desfazer a herança que Lerner deixou dois mandatos fossem pouco.
GLOSA Conselheiro, Lula tem bastante, mas para manter o clima de messianismo que aí está careceria de um Antonio Conselheiro, aquele de Canudos, e não é fácil achá-lo numa gôndola do supermercado da política, apesar de algumas das lideranças do MST, em seu imaginário, se acharem aí identificadas como agentes daquilo que FHC chama, com razão, de ''utopia regressiva''.
EPIGRAMA Pela amostragem de ontem, na praça de pedágio, com o Acir Mezzadri, da tropa mais íntima de Requião, assumindo quase o comando do bloqueio se tem uma idéia do que será o futuro governo em permanente conflito com a lei. Se na transição já aprontam uma dessas dá para imaginar o que virá.
FOLCLORE Agite antes de usar é remédio também para o pedágio doentio?
CROMO Há nos dias de calor, no olhar esgazeado das mulheres, um ronronar felino que agride e seduz. Não há miado, mas um ciciar de veludo.
AFORÍSTICO De uma coisa podemos estar certos: pode ser que o governo Requião não prenda o pessoal da chamada banda podre da polícia, mas que vai prender muito a atenção, isso vai.





