Iconoclastia da impotência


Quem me acompanha pelo rádio e jornais sabe que mantenho posição crítica e bastante dura relativamente ao NovoMuseu por não ser prioridade, por não estar sequer previsto no conjunto de obras do Centro Cívico e revelar-se mais um transbordamento voluptuário de Jaime Lerner. Nada disso justifica, porém, a fúria de alguns ataques que vem recebendo do seu sucessor, o governador eleito Roberto Requião. Num encontro do PPS, partido que tem ligações históricas com Oscar Niemeyer, usou expressões agressivas ao referir-se à obra apelando até para a escatologia. A frase ''mausolerner'' é até passável ao tratar o maior museu da América Latina como um mausoléu. Uma boutade, uma blague, vá lá, como eu próprio chamei o governador de ''Fujaime'' quando se recusava em 1985 a debater a cidade com o próprio Requião.
A forma como o governador eleito reagiu, se repetida à exaustão, nos meios de comunicação pode tornar-se numa ''chave'', uma senha, para que a ala selvagem venha a cometer algum desatino e algum desses militantes querer repetir o gesto daquele enfurecido que destruiu a escultura ''Pietá''. Nem todo o ato de iconoclastia, a derrubada de monumentos e estátuas, é impotente, alguns se justificam em determinado momento político e isso houve na demolição de esculturas de Lenin quando do fim do sistema soviético.
Essa compulsão verbal, não apenas de Requião, mas de muitos dos seus adeptos, hoje constrangidos com o fato de não haver no horizonte um fato político de relevo que possa projetar a nova gestão, lembra aquele encontro internacional que precedeu a Eco 92 em Curitiba e que o pessoal do PMDB, então no governo, usando instalações da Biblioteca Pública, produziu vídeos que eram projetados no Hotel Bourbon, em que os delegados se hospedaram, para mostrar favelas e rios condutores de esgotos da Capital não virtual. Nada daquilo teve efeito que não se limitasse aos quadros de militantes.
A invasão da Ferrovila, uma das maiores selvagerias praticadas em nome de excluídos quando visava fins político-partidários, é uma decorrência natural de tal cenário, dessa forma obtusa de agir sem pensar. Da mesma forma que não é justo subordinar interesses da cidade a projetos comerciais como tem se dado por aqui com alguns ''shoppings'', também não é válido transformar uma obra, discutível que seja por sua oportunidade, em exercício obsessivo dessa forma de iconoclastia que tem tudo de impotente.
BIZARRICE A classe operária não foi ao paraíso com as montadoras: juntando a New Holland de máquinas agrícolas, Volvo, Renault e Audi-Volks temos pouco mais de sete mil empregos. 28% dos componentes são adquiridos em outros estados e 37% importados. Quer dizer 65% de dependência. Com um detalhe: o salário é michuruca.
AXIOMA O museu pode ser o maior, mas o Paraná não é o segundo pólo automotivo e sim o terceiro, já que perdemos de Minas (Fiat).
GLOSA O basismo no PT sofreu grande golpe com a fala doutrinadora de Lula. Se seu apelo der certo vamos nos ver livres do berreiro em cima de caminhões de som na data-base das categorias. E os que não sabem fazer outra coisa como se rearticularão?
EPIGRAMA Até agora ninguém descobriu Caixa 2 na eleição recente. Uns acham que houve recuo por susto em função da eleição de Taniguchi.
FOLCLORE A obra do Fórum, de péssimo gosto, iniciada por Richa, interrompida no governo Requião (o diretor do Decom, Luis Henrique Bonaturra, denunciou irregularidades da empreiteira), está lá no Centro Cívico em contraste com o NovoMuseu, erguido a toque de caixa. Lerner foi mais ligeiro, em todos os sentidos, para fazer o museu do que para tirar o MST diante do palácio.
CROMO Não pude remover seus vestígios: os pelos no sabonete se deslocam e fogem da água que busca removê-los.
AFORÍSTICO No grupo de transição, a peteca precede o tacape e não se trata de troca de letras, mas de agressões e mentiras de lado a lado.

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