A Justiça poética



Nesta semana tivemos uma evidência de que o senador Requião tinha toda razão quando afirmou que o passado não se apaga ao referir-se ao esforço de Alvaro Dias para impedir a divulgação da foto desta ‘‘Folha’’ em que ele aparece com um boné com propaganda de Lerner, confirmando o ‘‘acordo branco’’. É que a condenação sofrida pelo Brasil na OEA por causa da execução do Teixeirinha pela PM em 1993 traz, também, algo que ele gostaria de ver esquecido.
As variáveis da política lembram um bumerangue: Richa, beneficiado por causa de uma certidão da aposentadoria precoce de Saul Raiz, no pleito de 1982, acabou perdendo a de 1990 devido a uma publicação daquela que o beneficiava. Outra ironia: Pimentel, que levou Raiz a pedir aposentadoria para servir sua gestão, tirou certidões do ato que ele próprio praticou para atingir o ex-aliado.
Ninguém prometeu uma fúria moralista como Haroldo Leon Perez como governador e acabou caindo acusado de haver tentado chantagear Cecílio Almeida. Por aí se vê que o melhor de tudo é a Justiça poética, o imponderável, a marcar de perto os encontros e desencontros dessa arte aética, que é a política.
BIZARRICE Em pesquisa nacional Getúlio Vargas, com 21 pontos, aparece como o maior presidente do Brasil. Com 20 em segundo FHC e Sarney, a simbiose da austeridade (o primeiro) com o populismo (do segundo) que ora desmantela a Argentina. Surpreende o fato de JK, tão badalado, ficar com sete pontos.
AXIOMA Há maior prova de que propaganda enganosa é redundância do que nesses anúncios da proclamada eficiência de cursinhos para vestibulares? É, também, um caso de matemágica se somarmos os números de alunos aprovados pelos cursos.
GLOSA Por falar em clone, Roseana Sarney parece sê-lo do próprio pai. Esse, sim, é o tal do nepotismo ‘‘esclarecido’’, típico do Brasil feudal.
EPIGRAMA Lerner (meia hora de papo na CBN) provou que precisa de dublagem.
FOLCLORE Antes o sistema de transporte coletivo de Curitiba financiava, de forma aberta, os políticos. Agora o passageiro o financia, tanto que vem aí de novo a cena costumeira da greve dos motoristas para aumentar a tarifa.
CROMO Geada no verão: o canto das aves é temporão como as frutas que degradam logo depois da florada. Com a ressaca, pinguins na praia de Matinhos.
AFORÍSTICO A burca ocultava um grupo de talebans presos. Nossos governantes deveriam usá-la se ousassem sair nas ruas.
VINHETA Dengue hemorrágica matou mais um: é contagem regressiva contra Serra.

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