Mais bandeira que decalque
Estava previsto que isso ocorreria no andamento da Copa: a melhora do desempenho da equipe, crescente na competição, e com ela o entusiasmo do público, levado ao furor no festival de símbolos nacionais nas ruas, notadamente nos automóveis, como se dá com bandeirinhas e bandeirolas. Até o empate com a Suíça os decalques de apoio à Lava Jato eram maiores do que a simbologia nacional. Depois da vitória sofrida ante a Costa Rica, a metamorfose de voltarmos ao natural nas relações com a pátria de chuteiras.
Tanto a Lava Jato como a seleção estão sujeitas ao rigor de um determinado momento e na verdade há algo mais do que uma emulação entre ministros dos tribunais superiores no seu ajuste a uma linha de conduta doutrinária como se essa opção implicasse numa filosofia, numa concepção de vida mais do que algo como adesão a uma escola, a uma teoria. Os votos da segunda turma anteontem mostraram essa linha de engajamento e com decisões fortes, de impacto pedagógico, tanto na liberação de Zé Dirceu quanto na anulação dos atos subsequentes ao ritual de busca e apreensão no apartamento funcional da senadora Gleisi Hoffmann, mas que na verdade visavam o seu marido Paulo Bernardo, em chuncho bastante específico em torno de manobra em cima de empréstimos consignados.
No voto havia uma espécie de espanto, de perplexidade, de como é que se fere essa integridade do domicílio de um senador da República à época, aliás, alegado e em brados pela atual presidente do PT. Aconteceu isso e muito mais, que permitiu o encarceramento de um ex-presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, até hoje guardado, e desse maxi-gangster do Rio, Sergio Cabral.
Naquele momento o ciclo punitivo, identificado como aspiração comum da sociedade sempre habituada à corrupção endêmica e à impunidade, não era contestado a não ser por advogados criminalistas insistindo na presunção de inocência, algo inimaginável nas relações do público-privado no Brasil, porque ela, em mais de 90% dos casos, só pode ser classificável como culpa e não inocência, como se vê em toda a trama das investigações.
Esse atrito entre grupos e supostas correntes na intimidade da instância superior, seja do STF ou do STJ, em nada favorece a segurança jurídica, ainda que a desmistificação de santidade, de precisão, em cima da Lava Jato, não seja de todo um mal.
Na realidade, a decisão é afrontosa por revelar repulsa da maioria contra jurisprudência assentada no STF relativa à prisão pós decisão de segunda instância. A respeito, Rosa Weber, hoje contra a orientação jurisprudencial, em respeito à colegialidade, ao consenso estabelecido, foi contra o benefício que se pretendia conceder a Lula e decidiu a parada.

Bem comprado
Numa gravação pegaram o deputado federal Marcos Junqueira fazendo recomendação especial na compra de políticos: "comprar tem que ser bem comprado, senão o cara se vende para outro lado também".

Velho debate
Desconfianças contra as loterias, especialmente a Mega-Sena, são persistentes, ainda mais com o recente 50-51-56-57-58-59, como de fato aconteceu, e veio a explicação: existem nada menos de 50.063.860 de combinações capazes de gerar tal resultado.

Confiança demais
A convicção do relator da reforma fiscal, deputado federal Luiz Carlos Hauly, de que a hora é apropriada para aprová-la decorre de uma perspectiva pessoal e do seu empenho de tanto tempo no trato da matéria. Fisiológico e populista como é o nosso parlamento seria uma contradição em termos a ratificação de qualquer reforma, ainda mais algo que mexeria com o interesse lobístico de várias áreas, entre as quais estamentos governamentais.

Revisão
Também o caso da delação da JBS e seus efeitos deve ser levado por Edson Fachin ao plenário do Supremo Tribunal Federal. É uma orientação sábia não apenas porque diluiu o nível de concentração de grupos internos, como os revelados na segunda turma, e coloca o coletivo acima de posturas isoladas. Mais de 80% de decisões do STF decorrem de pontos de vista monocráticos, absolutamente pessoais, o que mostra a fragilidade do sistema e agrava o fator de insegurança jurídica.

Inelegibilidade
Na remessa do caso da liberdade de Lula ao colegiado, o ministro Fachin juntou à análise do tema a questão da elegibilidade do ex-presidente em função da Lei da Ficha Limpa e da sua condenação em segunda instância, isso sem considerar os demais processos em curso.

Folclore
Caricaturar políticos como ignorantes é velha pulsão nacional: fizeram isso aqui no Paraná com Manoel Ribas quando isso não tinha o menor fundamento. Aí vinham as histórias de que ao inaugurar um bebedouro em Castro o interventor fez questão de tomar o primeiro copo. Ou ainda quando o general Dutra, em comício, disse que o Paraná era a terra das araucarías (e não araucárias), o governador teria achado correto porque afinal se diz estrebaria e não estrebária. Em Minas o sarro é em cima de Benedito Valadares.

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