STF legislando
Não estivesse o Congresso desmoralizado por seu envolvimento na corrupção endêmica uma de suas ações principais seria, no conflito intrapoderes, colocar como prioridade a defesa das suas prerrogativas seguidamente infringidas pelo Judiciário. E anteontem pintou mais uma, por obra e arte, do ministro Gilmar Mendes, a de mexer no Código de Processo Penal e atingir a condução coercitiva não para desidratá-la, contê-la e sim para interditá-la. E ainda nesse dia o ministro, em sua pregação sistemática oposta à Lava Jato, referiu-se à espetacularização nela embutida .

No debate nacional, que hoje flui do comportamento das suas instituições, é impossível evitar o espetáculo. Se a justiça pede a quebra de sigilo do presidente da República é difícil encarar o assunto sem algum espanto ou trauma; da mesma forma impossível não dar essa medida a tanto preso de colarinho branco entre políticos e empresários, mais estes do que aqueles. Tudo o que for nessa linha e mesmo um pouco abaixo pode ser tido como espetacular. Da mesma forma as travas que Gilmar Mendes estabelece não fogem à configuração, o que aliás, como tenho dito, é útil para o contraditório até para que não se santifique a Lava Jato ou a consagre como uma aspiração coletiva, argumento que é subjacente na fala do ministro ao populismo judicial.

Num país em que o Executivo arrumou um jeito de legislar impositivamente com o recurso das Medidas Provisória há muito o que fazer se se gastasse menos tempo em busca de propina. Um dos que primeiro tratou da espetacularização foi Gui Debord (uma baita figura da esquerda libertária que viajou do marxismo ao existencialismo e até à condição de punk) no texto "A sociedade do espetáculo" e seguido de Roger Gerard Schwtzemberg que desenvolveu o tema sob outra perspectiva em "O Estado espetáculo". O Brasil hoje não é só espetáculo com o seu time na Copa, mas também nas trapalhadas ministeriais do comovente bate-cabeças com os caminhoneiros na questão do frete. Chamá-los ou compará-los com os trapalhões daria direito a Renato Aragão e sua turma a pedir indenização judicial pela ofensa.

Próximos alvos
Com decisão do ministro Celso de Mello, decano do STF, está aberto o caminho para o juízo dos casos da senadora Gleisi Hoffmann e do marido, ex-ministro Paulo Bernardo. Se o ritmo for o normal Gleisi tem tempo para dirigir o PT e eleger-se deputada federal.

Por sinal que ontem tivemos em Curitiba a marcha pela liberdade de Lula, enquanto em Contagem, Minas, era lançada a candidatura do ex-presidente. Provas aliás de que no País o realismo fantástico não é literatura e sim o nosso cotidiano: um sentenciado disputando, ainda que na cadeia, a presidência da República. E também a história do presidiário, que se passou por juiz de direito, e quis engrupir, no meio da semana, o delegado que cuida de vigaristas.

Abrigo
Em função do frio a Fundação de Ação Social em Curitiba se desdobra no trabalho de resgate de moradores de rua. Em sua segunda ação intensificada abrigou 66 pessoas.

Água particular
O caso do morador do Guabirotuba que botou pra funcionar em sua casa um poço artesiano provocou um movimento incrível de burocratas de órgãos municipais, estaduais e federais, inclusive a Anvisa, para apontar a irregularidade da comercialização do produto, atestado por análise de um departamento da Universidade Federal. Em nota oficial a prefeitura interditou somente a comercialização por falta de alvará e outras exigências, já que o morador pode consumir a sua água. Curitiba em passado distante dependia dos poços e das fontes públicas até organizar-se e na região do Centro Cívico uma fonte de água mineral, que servia para os banhos depois da pelada onde está hoje o Paço Municipal, foi captada por um poço mandado construir por Anibal Curi que passou a abastecer o legislativo.

Quando há queixa contra a Sanepar, como a do lançamento de esgotos sem tratamento na bacia hidrográfica do Iguaçu, inclusive com multas aplicadas, a estatal empurra o processo com a barriga como dá pouca importância a reclamação de usuários de que ela fatura o ar nos hidrômetros.

Reações
Assanharam-se os defensores da privatização da Petrobras com as vendas de três áreas do pré-sal que renderam R$ 3,15 bi ao governo. Já os nacionalistas acharam que se o governo apertar os parafusos nos leilões e fortalecer o papel da estatal as coisas melhoram. Blocos da bacia de Santos como Três Marias e Uirapuru deram ágio de 500% e de 240% em relação ao preço mínimo.

BC gasta
Para tentar conter a escalada do dólar, o Banco Central descarta subida de juros no curto prazo para combater a inflação e usará todos os mecanismos disponíveis para deter a onda. Mario Simonsen dizia "a inflação aleija, o câmbio mata". Expectativa pessimista é a de que o dólar chegue aos R$ 4,00. Com o cenário atual e a lenta recuperação há razão para o caos.

Folclore
Foi lançada ontem em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte, a candidatura presidencial de Lula, e iniciada a contagem do tempo de sua duração no primeiro exame judicial do seu enquadramento na Ficha Limpa.

mockup