LUIZ GERALDO MAZZA
Inimigo oculto
Vários grevistas declararam tanto ao Exército quanto à polícia que se mantinham na estrada na base da coação. Como se vê, o caráter difuso do movimento caminhoneiro não tem vacina contra fascistas. A impotência dos líderes contra essa anomalia está visível no fato de que essas forças aparentam ser ocultas, ainda que minoritárias, mas com poder de persuasão e agudo senso de hierarquia. Como os black-blocks, que se infiltram em movimentos normais como os de 2013, a presença dessa forma de intervenção revela ausência de autorregulação, indispensável em qualquer movimento de massas como se dá entre os sem terra quando afastam das passeatas os que levam garrafa de pinga na mão ou mesmo em situações dramáticas como em El Dorado de Carajás, onde se viu na televisão um sem terra tomar a arma de um colega de mobilização que pretendia atirar contra a milícia que os massacraria. Esse tipo de "amigo secreto" pode ser uma Ku-Klux-Klan.
Retorno gradual
Aos poucos, agora com a mediação da Polícia Rodoviária Federal e forças militares, tenta-se a reorganização do abastecimento de combustíveis, inclusive com deslocamento de 100 viaturas daqui a São Paulo sob escolta. Levará alguns dias a recomposição do sistema. Em reunião ontem no Palácio Iguaçu uma série de informes bons dos comboios de carros tanque saídos da Refinaria de Araucária, a retomada de atividade de 19 frigoríficos e de armazenamento de mercadorias, tudo indicando um retorno gradual à normalidade, que ainda terá momentos de dificuldades como as observadas nas filas de automóveis em postos de combustíveis ou ainda na demorada volta ao pleno funcionamento da Ceasa da capital ainda ontem, deserta com apenas 10 pessoas no local. Pelo menos teremos duas a três semanas para a recuperação plena do abastecimento na rede de supermercados e hipermercados, empórios públicos (armazéns da família) e feiras.
Romaria liberada
Enquanto os acampados de Lula amargavam derrotas judiciais em multa e despejo contra o qual recorreram, celebrava-se um feito maior com a visita anteontem de parlamentares da esquerda, algo significativo por sua repercussão, ainda que obtido por decisão do relator da Lava Jato, ministro Edson Luis Fachin. Jorraram os discursos de que o ex-presidente é um preso político e não um político preso, reedição do Juvêncio Mazzarollo, o encarcerado de Foz do Iguaçu dos anos oitenta sob outro Richa, aquele de expressão nacional. Algo bem melhor do que o acampamento a concessão de Fachin pode abrir caminho para sucessivas romarias para exaltar o preso mais ilustre do país até ela cansar como tudo nesta vida, inclusive locaute de caminhoneiro. Nada resiste à fadiga do material, ao estresse.
TRF6 em debate
É possível que na quarta-feira, dia 6, seja pautada no Supremo Tribunal Federal a demanda em torno da criação do Tribunal Regional Federal do Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, cuja contestação vai ser finalmente apreciada. A OAB regional está mobilizada na questão em que tanto se empenhou e que hoje enfrenta as dificuldades da situação fiscal perversa. Há um esforço para não ser a Viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido.
Recurso
A defesa do ex-deputado Ribas Carli, autor do crime de trânsito que matou dois jovens em Curitiba, pleiteia em juízo a redução da pena de 9 anos para 7 anos. Está assumindo o risco do dolo eventual não desejado.
Pedágio
Pelo menos um dos aspectos do pedágio (abuso nas tarifas) é objeto de análise da 48ª fase da Lava Jato. Em 19 de junho, Sergio Moro ouve as testemunhas do caso que segundo a Receita Federal implicou em R$ 56 milhões de recursos desviados em pelo menos três anos. Dias passados, o personagem mais destacado das recentes prisões, o ex diretor do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem, Nelson Leal Júnior, deixou a cadeia depois de provável delação e é monitorado por tornozeleira eletrônica. Causa examina aditivos que beneficiaram a Econorte-Triunfo.
Pesquisa
A pesquisa Datafolha que mostrou 86% de pessoas favoráveis à greve caminhoneira dá bem uma ideia de como a resistência à política de reajustes dos combustíveis da Petrobras atingia capilarmente as bases da sociedade. Como sempre, mais de 50% não querem, porém, pagar pelas consequências fiscais do problema. É a reação normal de uma sociedade fortemente motorizada, irritada há tempos com o reajuste e dolarização dos combustíveis.
O problema para o governo é o seguinte: Pedro Parente é a figura de máxima austeridade de uma gestão sabidamente fraca e que vem imprimindo seriedade à estatal após tantos debacles expressos na prisão de um seu ex-presidente. A greve petroleira visa derrubá-lo e por ter esse objetivo político-ideológico foi considerada abusiva pelo TST.
Folclore
Em Cuiabá, um grupo de manifestantes em apoio aos caminhoneiros pedia intervenção militar e aí, paradoxalmente, o que aconteceu: os milicos apareceram para reprimi-los. A primeira reação foi cantar o hino nacional e depois xingamentos às genitoras dos soldados. Intervenção é boa nos outros, em nós inadmissível.





