LUIZ GERALDO MAZZA
Mandamentos abstratos
Em primeiro lugar, não se trata de uma greve e sim de um locaute, parede empresarial, embora haja como sempre a internalização da luta de classes expressa na posição dos autônomos, estes sim cingidos pela condição proletária. Se o governo nada controla pode-se dizer o mesmo dos insurretos em relação aos piqueteiros que por seu radicalismo tornam inútil qualquer acordo.
O governo empurra, há tempo, com a barriga o problema, pois o chio dos transportadores é desde agosto do ano passado e tem consciência de que a solução, seja qual for, tinha que sair ainda ontem e de qualquer jeito. E aí veio a ideia de um decreto, que parece obra do Acácio, personagem de Eça de Queiros, famoso pelo raciocínio óbvio, ainda que dito quase sempre com agudo pernosticismo, lembrando o império do direito de ir e vir como se a força de uma abstração jurídica fosse suficiente para desobstruir as estradas. É claro que aí, mais uma vez expondo as forças armadas como incumbidas da desocupação viária.
Em termos de força, afinal o poder de sanção é do governo, a intervenção no Rio de Janeiro, embora todo o aparato montado a respeito, não indicou o mínimo sinal de uma reversão na escalada criminosa. O governo já foi derrotado nas reformas por sua incapacidade de coordenação política e tenta sair dessa enrascada confiando num decreto de ação castrense.
O Juízo Final foi ontem. Ainda bem que só aconteceu depois da novela da Globo, como sempre se esperou que se desse com o fim do mundo. Mais do que o direito de ir e vir há a sagrada curtição do folhetim eletrônico "O segundo sol" a que somos todos irrestritamente convocados.
Pesquisa
Enfim saiu a pesquisa sobre intenções de votos para o governo estadual e Senado do Instituto Radar Inteligência: Ratinho na frente, com 35.2, Osmar Dias 27.4, Cida 8.4, Rosinha 3.2. No 2º turno Ratinho leva a melhor. Para o senado Requião na frente, com 15.8, Beto Richa 14.8, Francischini 9.5, Flavio Arns 7.4, Christiane 5.2, Alex Canziani 4.8, Takayama 3.9, Oriovisto 2.2, Picler 0.8. A polarização deve manter-se, mas fica visível que Cida Borghetti é quem detém maior potencial de recuperação por suas ações no governo, como no Senado, pelo uso de institucionais como educador, em filmes e outdoor, Picler pode crescer.
Ratinho lidera a tabela por maior participação que os demais postulantes e até ampliando seu raio de autonomia em relação a Beto Richa e rumo a um racha que se consumará na hipótese da exoneração do Ezequias. Osmar é prejudicado pelas ações do irmão Alvaro por suas ambições pessoais, mas tem potencial, ainda mais se fizer a liga com Requião, para vencer. É mais fácil à esquerda se atrair por uma solução como essa e já no primeiro turno porque o segundo só vale para governador.
O trilho
E de repente, não mais que de repente, no meio da crise se percebeu que o monopólio rodoviário é um drama logístico de primeira grandeza e o pessoal da Fiep e de outras instituições voltou a refletir sobre a tal ferrovia para Mato Grosso. Esse predomínio rodoviário no Brasil vem desde Washington Luís, mas ganha força de ideologia e de estratégia com Juscelino Kubitschek: junto com as montadoras (as primeiras de caminhões, como se deu com o Fenemê da Fábrica Nacional de Motores) o privilégio às rodovias e o abandono de alternativas como a ferroviária e hidroviária, adotadas em países de maior porte como saídas preferenciais e de maior produtividade.
Caos
Se a solução militar emplacar (a essa altura mesmo empresários da área do transporte em maioria desejariam recuos), Michel Temer, enfim, se reabilita e pode até assumir postura mais agressiva em defesa do seu candidato presidencial Henrique Meirelles. Mas as perspectivas até o fim da tarde de ontem eram extremamente obscuras com ameaça de colapso total do sistema produtivo e alcançando áreas sensíveis como a dos hospitais sob o risco de ficar sem oxigênio, combustível para ambulâncias, insumos e matérias primas gerais, e um ironista perguntava: e haverá combustível para movimentar as tropas que desobstruirão as estradas?
Delúbio
O rei sol afirmava "depois de mim o dilúvio" e, parafraseando-o, Lula poderia declarar que antes dele o Delúbio, agora preso por ordem de Sergio Moro. Todos se recordam da charge que o personagem fez do mensalão do qual todos se ririam como anedota, mais tarde. Nem sempre quem ri por último ri melhor.
Esperança
Semana que vem mais esperança para Lula: o TSE discute a questão da Ficha Limpa feita pelo deputado Marcos Rogério (DER-RO) em consulta e rejeitada pelo ministro Napoleão Maia, relator, por versar sobre caso concreto do ex-presidente.
Folclore
Um dos piqueteiros de ontem foi flagrado com a frase: a de que os patrões garantiriam a presença deles para sempre na estrada. Informação e contrainformação fazem, como sempre, parte do jogo.





