Questão de Estado Maior
A situação vivida pelo país exigiria, no mínimo, que o governo tratasse o caso da paralisação dos caminhoneiros, na perspectiva militar e de comando, no mínimo, como assunto de Estado Maior. Trata-se de um ato de resistência civil, de insubordinação à autoridade e que exigiria uma competência dos seus negociadores superior ao nível de respeito devotado ao governo. Não se trata de embate entre Petrobras e seus clientes numa dividida em torno de preços, mas de segurança nacional, severamente ameaçada de colapso de todo o sistema produtivo.

Para chegar ao ponto atual fica visível que os insurretos jamais aceitariam negociações graduais como a da redução de 10% por 15 dias. Talvez seja a condição mínima dentro dos planos da estatal em termos de racionalidade, mas o grau de arregimentação pode levar os reivindicantes a pleitear o insuportável.

É verdadeiro mesmo o conceito de que o país atingiu, há tanto tempo, autossuficiência em petróleo ou estamos diante de mais uma das miragens do ufanismo? O país obviamente está quebrado e sua dívida, aparentemente impagável, é cada vez mais aterradora. A tendência do momento, em função da conjuntura internacional, é de elevação constante na cotação do barril de petróleo, que já esteve pela metade do preço atual.

O governo, moralmente fragilizado, se mostra incapaz de acionar um dispositivo, em termos de contraproposta, como se estivesse pela vez primeira a encarar um caso de resistência civil extremo e num clima em que é afastada a hipótese da razoabilidade pelo potencial até aqui mobilizado. Como teste é definitivo porque a situação vivida não oferece evasivas que não representem novos gravames à situação fiscal, e um dos caminhões das carreatas havidas no país tinha uma frase dirigida ao governo e à classe política: "Não fui eu quem meteu a mão na Petrobras!" O que não significa que por isso tenha o direito de bagunçar o coreto.

Desabastecimento
Não temos experiência de desabastecimento até porque mesmo nas mais agudas crises nunca o experimentamos na intensidade atual: segundo informes da área na Ceasa a queda de oferta chega a 60%. O primeiro deles é dos próprios combustíveis, como se viu na operação de guerra desencadeada pela Urbs, guarda municipal e polícia militar para garantir, pelo menos por uma semana, os estoques para assegurar o funcionamento do transporte coletivo. Essa ação veio em consequência da negativa do prefeito de Curitiba, Rafael Greca, de aceitar o corte da frota em 50% nos horários normais e em 30% nos de "pico". Apesar dessa quebra clara no ritmo da coordenação e revelando o acentuado desprestígio da Urbs, a provisão ficou garantida, posto que a operação ganhasse características de guerra.

Os supermercados, que exercem controle sob estoques, já acionaram o sinal de alerta para a próxima e inevitável falta de mercadorias, sensível no dia a dia depois dessa meia semana de bloqueios.

Montadoras
Montadoras paranaenses, que já sofreram debacle com a crise cambial da Argentina no bloqueio àquele mercado, também padecem com as consequências atuais. Percebe-se que da atividade mais elementar e extrativa à de maior tecnologia e apuro todo o sistema produtivo é atingido. A situação dramática que leva agrocooperativas a lançar o leite fora por falta de condições de mobilidade é também observada na suspensão de abates de frangos e de peixes, dois setores em que o Paraná desponta como dos mais avançados do país.

Abusos
O caos estabelecido gerou outro problema: a especulação nos preços dos combustíveis, em que tivemos o caso ao norte do Brasil da cobrança de R$ 8 por litro de gasolina. Taxas bem menores, mas especulativas, foram praticadas em todo o Paraná com o Procon ditando normas para o processamento dos infratores e colocando agentes seus na vigilância dos postos em todo o Paraná.

Um caminhão com combustível destinado ao aeroporto internacional de Afonso Pena teve que sair da Refinaria de Araucária comboiado pela Polícia Rodoviária Federal. Esse fato dá bem a noção do tumulto geral e que confere um poder de barganha imensurável aos grevistas, enquanto o governo patina na perplexidade.

Rachinha
Primeiros sinais de racha entre Beto Richa e o grupo de Cida Borghetti-Ricardo Barros são visíveis como o ato de demissão de Deonilson Roldo de um posto diretivo na Copel e expresso também na derrubada dos trinta cargos em comissão da Sanepar, formados por ex-prefeitos eleitores do governo anterior. Noticiou-se também a exoneração de Ezequias Moreira, o que acabou não acontecendo. A perspectiva é de agravamento nessas relações e a coisa pode até transbordar a qualquer momento.

Folclore
De repente os preços dos combustíveis subiram tanto que o passageiro de ônibus da Capital e Região Metropolitana acabou achando que o preço da tarifa de R$ 4,20 é bastante razoável.

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