Imaginário em via torta
O quadro de sonambulismo vivido pelo Brasil com a greve dos caminhoneiros foi imaginado e colocado como ameaça com a simples hipótese da prisão de Lula, inclusive morte de gente, como sugeria a senadora Gleisi Hoffmann. Um estado de absoluta anomia, impossível de ser regulado por via institucional, com generalizado desabastecimento, agora já acionando o sinal vermelho para ofertar combustível ao transporte público, cooperativas jogando leite fora por não ter como aproveitá-lo, outras suspendendo o abate de frangos e peixes, fábricas parando a produção, enfim a construção do caos.

Mas isso tudo se deu em função de um caso concretíssimo: o reajuste automático, em níveis cada vez mais alarmantes, dos derivados do petróleo, mormente do diesel que alimenta a frota transportadora. Atos desencadeados agora foram portanto imaginados e desejados para que ocorressem em função da política e abrindo o país para níveis de resistência civil jamais perpetrados nem quando do suicídio de Getúlio Vargas, que levou a massa às ruas.

Não é a primeira vez que enfrentamos esse tipo de anomalia, como se deu com a greve de anos atrás da mesma categoria. O impacto de agora, pela rapidez com que se desdobraram tais acontecimentos que afetaram todo o corpo da economia brasileira, está a exigir celeridade nas medidas compensatórias prometidas que até aqui não foram bem recebidas e vistas até como insuficientes como resposta imediata à crise.

Estamos diante de um acidente excepcional que mostra a concretude e a robustez de pressões de fundo econômico, essas tão permeáveis como as de caráter político em sua face psicossocial. Se a resistência a situações famélicas fosse exposta de forma revolucionária – com a multidão tomando as ruas e saqueando lojas - haveria, por certo, formas de repressão violentas o suficiente para anulá-las, mas a situação enfrentada tem todas as características de uma guerra, ironicamente tarefa de políticos e administradores. Militares, por sinal, estão só concentrados nas peripécias do Rio de Janeiro e de sua segurança.

Econômico e político
Enquanto a crise desencadeada contra a alta dos combustíveis minava a economia nacional e a submetia ao mais duro dos desafios, no front político havia ganhos: o Eduardo Azeredo se apresentou à autoridade para o cumprimento da pena em Minas Gerais e o ministro relator da Lava Jato Luis Edson Fachin aceitava o pedido de uma comissão de deputados federais para visitar Lula na próxima semana. A economia, pelo jeito, em situações anômalas, é muito mias perturbadora do que a política, essa aparentando docilidade.

Emergência
Em Paranaguá, um dos berços de atracação, para fins de exportação, também fechou diante da crise dos combustíveis e em Curitiba a Urbs anunciou o corte de linhas de transporte coletivo em 30% no horário de pico e de 50% nos comuns. Clima de guerra para valer, que logo se estende ao desabastecimento, perceptível desde ontem nas Ceasas. Nem na guerra mundial (que tivemos blecaute nos exercícios de defesa passiva em treinamento para presumíveis ataques aéreos, e na dureza do racionamento de produtos, notadamente os de importação como o trigo) tivemos tal cenário.

Fake news
O empresário Eduardo Carmona declarou que usara à exaustão fake news na campanha em favor de Rafael Greca e agora, julgando-se prejudicado, o deputado Ney Leprevost, perdedor do pleito, ameaça ir à justiça. Isso aí é grave e pode implicar severamente o declarante, mas não dá tapetão. É algo parecido com o recurso do Palmeiras contra o titulo do Timão no campeonato paulista por suposta influência externa.

Sabotagem
Uma reação de operadores da Ceasa à designação de Wilson Goinski, ex prefeito de Almirante Tamandaré, para comandá-la foi marcada por exercícios de sabotagem como o da supressão de atendimento a Ongs assistenciais, e a governadora Cida Borghetti, face à resistência havida, suspendeu a nomeação. Setores corporativos como esse às vezes se revelam mais resistentes do que uma Sanepar atingida pelo corte de 30 dos seus cargos em comissão em ato unilateral do Executivo. A Ceasa já deu margem a conflitos como o estabelecido entre Roberto Requião, governador, e o vice Orlando Pessuti, que acumulava a pasta da Agricultura.

O mais apoiado
Dos candidatos a presidente certamente o que conta com maior apoio do mercado e de instituições do exterior é o ex-ministro Henrique Meirelles. O problema é que a imagem de dirigente bancário internacional, ex-presidente do Banco Central de Lula e ex-ministro da Fazenda, é insuficiente para mexer na rala intenção de votos que exibe.

Folclore
O que a prisão de Lula não conseguiu, a liberdade para aumentar os combustíveis obteve com facilidade: o Brasil vive um cenário de guerra e não se sabe como sairemos da enrascada. Num e noutro caso, a Petrobras no meio. Nunca ficou tão claro que o petróleo não é nosso e sim dos políticos e dos tecnocratas.

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