Lula não é Gramsci, mas vai escrever os cadernos - no caso as cartas - do cárcere, cujo primeiro mês foi celebrado ontem, com um magote de manifestantes desfilando na frente da Justiça Federal com cartazes e faixas proclamando sua inocência. O background da situação vivida por Gramsci estava ligado à ascensão do fascismo e do nazismo, em meio às perspectivas de uma guerra mundial.

A diferença de situações é grande demais para que sequer sirva de metáfora, quase lembrando o ser histórico submetido às circunstâncias na lição de Ortega y Gasset. Num tempo em que o terceiro homem na sucessão do Vaticano é processado por pedofilia, não há porque espantar-se com um ex-presidente da República, enquadrado em vários delitos de corrupção e formação de quadrilha num festerê entre estatais e empreiteiras.

Nas mensagens de Lula há frases como "a esperança do povo está presa há um mês" e "essa solidariedade" é que o sustenta na resistência a uma punição sem provas. De qualquer forma, as manifestações dos seus aliados retemperam as energias, posto que vai ficando mais longe a perspectiva da liberdade, há tanto tempo imaginada por seus seguidores. Tanto que deram a marca nítida de provisoriedade ao seu acampamento.

Numa perspectiva judicial, pode-se levar em conta - e isso não para logo - a hipótese de vir a ser pautada no STF a questão da prisão pós decisão de segunda instância, essa a derradeira das esperanças ainda em estoque. Assim mesmo não se tem a segurança em torno do voto de Rosa Webber na eventual aplicação da tese à especificidade do caso do ex-presidente, como se captou na decisão negativa do habeas corpus pelo colegiado.

Apostava-se numa reação favorável a Lula em linha internacional, mas a advertência de Chomski sobre a necessidade do exercício da autocrítica por ter o partido se rendido à sedução da corrupção capta a noção de que não escapa aos olhos da crítica o desvio de caminhos no rumo adotado.

Surpresa
O desempenho da economia curitibana na geração de empregos com carteira assinada surpreendeu os especialistas: foram criadas 5.588 vagas e isso deu à capital o terceiro posto atrás, é lógico, de Belo Horizonte e São Paulo no primeiro trimestre. Desde 2014 não tínhamos desempenho tão bom.

Carreta careta
A Polícia Rodoviária Federal flagrou uma carreta, nas imediações de Guaratuba, à velocidade de 112 km horários. O absurdo faz parte da rotina diária, em que o peso de ocorrências como a der Candoi é insuficiente para ampliar os cuidados.

Cerco
O caso da via paralela em Ponta do Sul para atender a demanda de um porto privado está suspenso por ordem governamental, mas o Ministério Público não arreda o pé na disposição de interditá-lo. Aumenta o leque de entidades opostas à orientação governamental. Se a segunda figura do sistema está presa (o diretor do DER), seria um motivo a mais para questionar tudo, por se tratar de decisão estratégica e em fim de governo.

Visita
O teólogo Leonardo Boff conseguiu nesta segunda-feira (7) um encontro com Lula, o que teve a força de um conforto moral de primeira ordem, dada a expressão do maior teórico no Brasil do evangelho libertador e as relações de amizade e afinidade com o ex-presidente.

Para Bangu
Presos da Lava Jato que estavam em Benfica foram transferidos, como se deu com Sergio Cabral, para o presídio de Bangu.

Executivos
Raramente temos a presença de executivos empresariais tentando a área política, tal qual se dá com dois grandes empresários educacionais disputando vagas no Senado, como Oriovisto Guimarães do Positivo e Wilson Picler da Uninter. Não deixa de constituir-se em experiência nova. Oriovisto faria a campanha com dinheiro exclusivamente seu, como está prometendo o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. O que também é novidade.

Pique
No balanço dos 30 dias de gestão, Cida Borghetti teve contato com prefeitos e lideranças comunitárias e transferiu recursos às prefeituras, ao mesmo tempo em que formava seu governo. Governar e habilitar-se para a reeleição num pleito difícil exige pique.

Serra
Agora quem está dando cartas contra José Serra e o operador Paulo Preto é o Ministério Público da Suíça em quatro contas que, no ano passado, contabilizavam US$ 34,4 milhões.

Folclore
Está sendo quebrado o rigor do bloqueio das visitas a Lula. Nesta segunda foi a vez de Leonardo Boff, o maior pregador brasileiro da Teologia da Libertação. Um pouco de doutrina no cárcere sempre ajuda: político preso precisa nutrir-se de práxis e teoria, ainda mais quando tentam compará-lo a Gramsci, aquele que escreveu "Cadernos do Cárcere".

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