LUIZ GERALDO MAZZA
Gincana é revolução?
Se estivéssemos não necessariamente num regime autoritário, mas duro com ilegalidades por mínimas que fossem, certas práticas comuns dos basistas seriam reprimidas, como a ocupação do tríplex ou essa farra festiva de liberar ao usuário a estrada pedagiada. Ocorre que é visível a diferença entre um ato de resistência ou revolucionário e uma gincana como essa do MST, ora não acompanhada de bloqueio das rodovias, moda generalizada até para pedir passarela ou protestar contra violência nem sempre do tráfego.
Esse mimetismo necessário nos nossos hábitos não é suficiente para tirar da cabeça dos mais exaltados que tais ações são revolucionárias. Em 1964 também se fazia uso do traço festivo nas dramatizações do Centro Popular de Cultura da UNE, estimulada pelo ministro Darci Ribeiro: nacionalistas, antiamericanas, eram muito bem produzidas por uma gama de artistas - entre os quais o Vianinha - e que também produziam filmes, dentre eles o documentário "Cinco vezes favela" dentre os quais figurava o Arnaldo Jabor.
Ora, isso estava capitulado na Lei de Segurança Nacional nos estados de tensão psicossocial, mas pegava mal bater em artistas entregues a um exercício teatral. Com o fim do regime militar essa distância entre o princípio da autoridade se estiolou diante do libertarismo, seja no acampamento diante da Polícia Federal ou na frequência das ocupações de instalações universitárias, uma delas tensa (até com casos de aprisionamento) na decisão do Conselho Universitário com a entidade hospitalar federal em convênio pró Hospital de Clínicas.
A tolerância com as gincanas e o festivismo - que já se davam nos anos sessenta na queda de João Goulart - está incorporada ao fair play que tanto se ajusta ao nosso estilo que prefere o sarro, o humor, do que a briga verdadeira. Até porque essa pode acabar na justiça como o caso daquele empresário antilulista que foi provocar o inimigo no Instituto Lula e acabou com um comprometimento cerebral ao ser agredido. Mas tem sentido o gesto temerário? Não, mas em nossas manifestações como a das ocupações - viaja-se no fio da navalha a todo o instante. Houve delito na invasão do triplex e eventuais danos patrimoniais que acabam não sendo cobrados em nome da elástica tolerância, posto que no caso do pedágio liberado o usuário acaba pagando, de forma difusa, pela pressão judicial das concessionárias .
De repente um Bolsonaro ganha a eleição e entra em vigor a carranca da tolerância zero e lá se vai a nossa tropicália que finge revolução quando pratica gincana. Como o poeta fingidor que finge que é dor a dor que deveras sente.
Pró Lava Jato
Pelos decalques em automóveis de aprovação à Lava Jato não se tem ideia precisa de quanto ela é apoiada, posto que essa convicção venha acompanhada de um viés cético, o que acabará dando em nada, até mesmo a sentença contra Lula. No último Datafolha 84% entendem que o fluxo judicial não poda ser detido, que 57% apoiam a prisão pós decisão de segunda instância, 35% defendem que a detenção só ocorra depois de esgotadas todas as possibilidades recursais na justiça e apenas 12% têm opinião de que a Lava Jato deveria acabar. Outra posição dos entrevistados, bem na melhor das perspectivas democráticas, está nos 61% que acreditam que comandantes militares devam opinar sobre fatos políticos como qualquer cidadão. Farda não é camisa de força. Comprova-se aí que, apesar de ter em Lula seu mais contundente e popular adversário, ela conta com o respaldo da maioria esmagadora da população.
Mais visitas
Enfim, a comissão senatorial de direitos humanos foi recebida por Lula, inspecionou as demais carceragens da Polícia Federal e anunciou visitas periódicas. Claro que o ex-presidente se declarou indignado, mas é visível que o tratamento é normal. Rompida a rigidez da juíza da 12ª, exposta no caso dos governadores, rompeu-se mais um circuito de tensão alimentado pelo acampamento ora disperso, mas ainda unido em seus propósitos de pressão política, num novo local perto da rápida rumo a Santa Cândida.
Seletividade
O argumento de que a Lava Jato é seletiva recebeu nesta terça-feira (17) um golpe: o senador Aécio Neves, candidato presidencial do PSDB é, agora, réu em processo de corrupção, aquele das duas milhas junto à JBS. Cinco a zero, já o de obstrução à justiça foi de 4 a 1. Esteve afastado, voltou à Câmara Alta e pega um rabo de foguete, mais contundente do que o aplicado no atual candidato presidencial Geraldo Alckmin, que saiu da Lava Jato para ficar sob exame da instância eleitoral, o que acentuou as suspeitas de proteção seletiva.
No julgamento foi testada a eficácia da delação premiada da JBS desde aquela conversa com o presidente Michel Temer, prejudicada por algumas contradições, ora ratificada, tida como procedente, pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal.
Folclore
Apesar do clima curitibano, Lula acabou tomando seu banho de sol num cenário em que o astro rei era menos relevante que o astro réu.





