Resistência civil
Como Lula só iria manifestar-se às 16 horas ficou meio implícito que ou resistiria ou faria a sua apresentação à Polícia Federal em São Paulo, o que trucaria a ordem de Sérgio Moro que afinal desconsiderou recursos cabíveis no próprio TRF-4 como o embargo dos embargos. Lula teria menos de uma hora para deslocar-se a Curitiba para uma sala reservada há 15 dias.
Para que um ato de resistência civil tenha êxito indispensável é que seja fermento de mobilização e que esteja acompanhado de manifestações como as havidas no Paraná, ao longo do dia de ontem, em locais históricos como Porecatu, raiz dos núcleos de organização de posseiros nos anos 50; Campo Bonito do Iguaçu, onde a PM matou o líder Teixeirinha no governo Requião como revide à execução de três soldados da P-2 pelo MST; e em Quedas do Iguaçu, área do nosso maior conflito fundiário contra a Araupel e próxima do local em que partiram os tiros contra a caravana de Lula que segundo a polícia científica vieram de uma garrucha. Afinal a obsolescência do instrumento não reduz a gravidade do evento.
Essa dramatização era esperada ao lado de outros saques como o de intervenção junto ao órgão de Direitos Humanos da OEA, Organização dos Estados Americanos, por uma série de abusos judiciais e um suposto estreitamento do direito de defesa. O fato, que por seu ineditismo, ganhou destaque internacional também é intensamente aproveitado.
Como a vítima, dentro das nossas tradições e cacoetes culturais, é mais forte que o acusador as esquerdas jogam todo o seu potencial no possível confronto de olho nas eleições, seja na preservação da candidatura mesmo preso e alcançado pela Ficha Limpa, mas rendendo para o momento de intensa dramaticidade. Algo com o líder vivo, capaz de reprisar o havido com Getúlio Vargas morto. Um delírio, mas há momento mais apropriado para isso?

Mais amena
A posse e transmissão do cargo de Cida Borghetti, dada a concorrência com o noticiário da prisão de Lula, foi regionalmente forte e indicador de que nele já se captou o disparo da campanha da reeleição. Quer dizer, mal tomou posse, já praticou atos voltados para aquele objetivo. Indispensável, porém, manter a unidade com o grupo de Beto Richa no propósito de levá-lo também ao Senado.
Não foi forte como se imaginava, todavia saiu do "mais ou menos" já que tudo sofreu a influência da novela nacional, daí poder classificar-se como mais amena. Um destaque para dar uma tonalidade forte ao empoderamento da mulher: teremos a primeira governadora e simultaneamente a primeira comandante da PM. Só não a chamem de comandanta.
Se essa marca vier acompanhada de feitos nessa direção teremos algo que há muito não ocorre em governos paranaenses: uma ideia-força que vale a pena cultuar e expandir.

Endurecimento
Se forem confirmados os atos de resistência civil de Lula, pois até para apresentar-se às 5 da tarde na Polícia Federal de São Paulo haveria problema, dado o fato de que se situa a 35 km do bunker sindical de São Bernardo do Campo, pode-se esperar repique judicial. Uma reação de Sérgio Moro à desobediência ante uma decisão poderia implicar em prisão preventiva e sem as considerações anteriores de aprisionamento. Todas essas hipóteses eram levadas em conta pelos advogados e assessores do ex-presidente.

Causas locais
O nível de engajamento de Londrina, na questão do IPTU e na revisão da planta de valores, valeu a pena em função do engajamento da Ordem dos Advogados na causa. É uma espécie de restauração do Movimento Pé Vermelho, Mãos Limpas, aquele que uniu igreja, maçonaria, profissionais liberais no tempo do outro Belinati, e quando o Youssef aflorou pela primeira vez e que teria papel relevante no escândalo Banestado CC-5, na qual atuava também o juiz Sergio Moro.

OEA de novo
Advogados de Lula querem a medição do setor de Direitos Humanos da OEA. Recentemente quem pediu essa intervenção foi a Adepol contra as masmorras de presos superlotados do governo Richa. Em outras duas vezes ela condenou o governo paranaense: uma naquela execução pela PM do líder Teixeirinha, essa sob Requião, e outra perto da Capital na morte de um sem terra atingido por bala que resvalou no asfalto, gestão Lerner e que no local puseram uma alegoria, bem ao estilo do realismo socialista, de Oscar Niemeyer.

Folclore
No Brasil tudo é possível: ex-presidente prestes a ser preso, governador do Rio em cana, ex ministro de Lula e Dilma, o Pallocci, também guardado; ex-presidente da Câmara e autor do impeachment, Eduardo Cunha, no xadrez. Agora anunciam Gustavo Perrella, dono do helicóptero flagrado com cocaína, filho do senador Zezé Perrella, nomeado diretor da CBF, chamada pelo Juca Kfouri de Casa Bandida do Futebol. Do seu currículo consta a condição de ex-deputado estadual de Minas, ex-presidente do Cruzeiro e ex-secretário nacional de futebol. Só falta eleger o Doutor Silvana para presidente.

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