Hora da catarse
O Brasil está rachado ao meio. Em clima de histeria, excitação de torcida organizada de futebol bem nos nossos padrões, vai simplesmente saber se a decisão por prisão pós segunda instância fica ou cai. E essa indicação não virá de forma direta, mas tortuosa em cima do habeas corpus em favor do ex-presidente Lula.
Nunca a política foi tão judicializada e jamais vimos uma justiça tão politizada, deformações graves que parecem não preocupar os agentes envolvidos, vale dizer conjunto de todos os brasileiros, como se uma espécie de embotamento dominasse as pessoas, tornando impossível o exercício elementar do raciocínio. A impressão é de Juízo Final. No entanto, o País sobreviverá a decisão, seja qual for, posto que pareça impossível e os que perderem a parada experimentarão a sensação do fim.
Volta e meia uma tipo de tema sentencioso exerce esse papel: assim foi com as diretas já e como elas não passaram no Congresso tivemos a compensação menor da eleição indireta de Tancredo que no fundo se valia da arregimentação dos comícios por eleições. Tivemos a aura também da anistia e da Constituinte que pareciam a seu tempo a salvação do País. Jamais seremos salvos porque quem acredita em salvadores, como é da nossa tradição, e isso se verifica na demanda de hoje, não merece a salvação.

Arregimentação
O grupo que apoia Cida Borghetti não está nem aí para a mobilização de hoje em torno do habeas corpus de Lula: sua preocupação-chave é dar a máxima demonstração de força na sua posse e também, especialmente, na transmissão do posto no Palácio Iguaçu. Intenção é levar a um sentido de apoteose o ingresso no governo estadual, primeiro passo rumo à reeleição, com ampla convocação de lideranças municipais.
Ratinho Júnior percebeu que precisa dar sinais de independência, daí o voto contrário nas benesses recém concedidas ao Judiciário e ao Ministério Público, Osmar Dias tenta ganhar musculatura, pois nenhum deles subestima a vice, ainda que no momento possa estar atrás dos dois nas pesquisas, ainda que tenha tudo para deslanchar, especialmente com a pressão que seu marido, Ricardo Barros, exerce sobre o governador que está tirando o time, todavia aspira uma das vagas do Senado.
Um dos objetivos será dar continuidade a promessas de obras como esse café requentado da duplicação da rodovia dos minérios.

Flagra
A vereadora de Foz do Iguaçu. Nanci Rafaim Andreola, presidente da Comissão Ética, foi apanhada em falta grave ao pedir licença para tratamento de saúde e ser vista curtindo o Rock in Rio. Teve a cautela, pela consciência da falta, em pedir afastamento do posto já que não pegaria bem fazer o juízo da própria mancada. Ontem a Câmara abriu processo.
Em Curitiba a mesquinharia da bancada majoritária pelo corte do ponto da vereadora petista professora Janete que alegou afastamento da sessão para acompanhar a caravana do ex-presidente e isso foi glosado pela maioria com discursos candentes. Rigor bem do clima exasperado que estamos vivendo, jogada sem grandeza e puramente ideológica, primária. .

Segurança
Antes de fazer o seu pronunciamento pela concórdia nacional, a presidente do STF, Cármen Lúcia, teve reunião com o diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro, para tratar do esquema de segurança na sessão de hoje da corte para a qual é esperada massa de populares da ordem de 20 mil a favor e contra, o que se dará também em outros pontos do País. As manifestações de ontem em Curitiba na Boca Maldita e diante da Justiça Federal dão ideia do que poderá acontecer em função do clima passional.
O risco de confronto é hoje maior do que quando das audiências de Lula em Curitiba e do dia em que o TRF-4 consolidou a sentença, ampliando-a, contra o ex-presidente. A ideia é de separar os grupos de manifestantes por grades, sabidamente insuficiente para isolá-los.

Afinidade
Por incrível que pareça há semelhanças no discurso de Cármen Lúcia e do presidente Michel Temer em suas exortações de anteontem: ambos, por motivações diversas, falaram no sentimento de brasilidade. Ela no intento de que a democracia prevaleça e as pessoas aceitem as diferenças e ele na alegação de que os que lutam pela desestabilização não respeitam o sentir nacional, uma referência não muito sutil às pressões da Justiça e da Polícia Federal contra seus amigos mais próximos presos e já liberados.

Folclore
A sessão de hoje do STF vai lembrar em tudo um clássico de futebol, o que não honra nossas tradições de civilidade. Na mente do público quando um ministro der um voto será como um gol marcado com ele beijando a fardão já que não pode exibir a camisa. Cada voto um gol e não vale gol contra, conquanto se confie demais no da ministra Rosa Weber.

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