A imprevisão do dilúvio
Há um conceito em engenharia hidráulica que relativiza a importância estatística das séries históricas das chuvas. Aliás o Brasil mostrou – e isso em sua mais forte unidade, São Paulo, na crise hidráulica recente - a inocuidade desse parâmetro: suas represas secaram em níveis jamais imaginados. E se na escassez se capta a precariedade de levantamentos, tudo se repete nas enxurradas como as vividas nestes dias por Curitiba com o caos implantado em inúmeras áreas da cidade, especialmente na Cidade Industrial, com o alagamento dos domicílios atingindo mais de 300 famílias, o que foi respondido com um mutirão de solidariedade com doações nas Ruas da Cidadania e na central de atendimento em Campo Comprido.

Não temos uma rotina para a questão da drenagem como temos para a pavimentação, hoje uma das prioridades do prefeito Rafael Greca, destacando-se com medidas pontuais como a de desassoreamento de rios e canais e não com ações permanentes como as havidas ao longo dos anos 50 e 60, século passado, quando um órgão federal, o DNOS, Departamento Nacional de Obras e Saneamento, se ocupava na questão com Estados e municípios. As enchentes agrediam o centro da cidade e exigiram obras de fôlego e de alta inspiração técnica como o canal de desafogo do rio Ivo na altura da praça Osório com quilômetros de extensão e que liberou a área do flagelo.

A ausência de uma estratégia é visível como se tornam dispersivas medidas de desobstrução de canais quando persiste uma falta de visão global do problema. Também fazer campanhas de despoluição do Belém e do Atuba, ainda que válidas para mobilizar a comunidade em torno do meio ambiente, não prosperaram como os projetos de Lerner e Taniguchi sobre a nascente de um deles, na qual reporia os lambaris de rabo vermelho.

Enfim uma reflexão é necessária em torno quer da crise hidráulica quer da ocorrência de chuvas que testam o precário sistema de drenagem existente.

Retorno à União
Afastada a hipótese de prorrogação dos contratos de pedágio com a determinação na pasta dos transportes de que retornam à União no vencimento do prazo dentro de poucos anos, resta esperar frutos da intervenção na área na 48ª etapa da Lava Jato com um ganho sério na transformação de prisões temporárias em preventivas e uma possível investigação em torno do atual diretor do DER. Até pelo traço polêmico que o fato gerou, inclusive com farsas como a do "baixa e acaba" de Requião e o corte linear de 50% nas tarifas de Lerner para não perder a reeleição e os incidentes sequenciais que geraram duas inúteis CPIs revelando sempre a resistência tanto do poder concedente quanto dos concessionários, há portanto um manancial de fatores reclamando pela devassa da caixa preta e o estabelecimento de regras claras e, em especial, as de transparência.

Situação fiscal
A presença do secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, em seu relato no Legislativo, indica que o caos ainda não foi ultrapassado no que se refere à situação fiscal. Continuamos sob a espada de Dâmocles no referente à Lei de Responsabilidade Fiscal: de um modo geral os três poderes se encontram próximos do limite prudencial com o comprometimento de 53% no qual o bloqueio se impõe em 57%. No Executivo a situação é de 45,13% para 46%. Com todo o esforço feito como a campanha da nota fiscal e mais a rotina contra a sonegação houve um aumento da receita em 5,24% enquanto a despesa chegava a 5%.

A indefinição nacional quanto às regras da reforma previdenciária, hoje adiada às calendas, pode conter por algum tempo ou até acelerar as aposentadorias, mas dá para prever algo que já está sinalizado: o colapso dos serviços públicos que ocorrem em escala nacional e são visíveis aqui nas demandas de atendimento médico ou na simples obtenção da carteira de identidade para a qual o governo estadual busca saída emergencial com as Ruas da Cidadania operando como unidades descentralizadas. Não podendo nomear por falta de numerário, os concursos ficam prejudicados e a reposição do pessoal é aspiração distante, o que acentuará a carência na demanda de serviços públicos. Não há perspectiva próxima de solução e o que se pode prever, sentenciosamente, é a manutenção do congelamento salarial dos barnabés. E também previsíveis atritos entre o governo e APP-Sindicato por causa do salário hibernado dos temporários. E isso sem falar no conflito com reitores das universidades estaduais pela rejeição de inserir-se na Meta 4, aquela que obriga as unidades a revelarem as despesas com pessoal e elas sabem que isso as sancionará.

Um bebê
Em meio ao drama das cheias na Cidade Industrial, moradora da região achou um bebê com pouco mais de uma hora de vida em terreno baldio. Ação rápida dos serviços sociais permitiu o atendimento no Hospital de Clínicas. Outro ato humanitário foi a decisão da Ceasa de oferecer alimentos aos flagelados.

Folclore
No tempo do jornalismo polêmico um dos mais atuantes era Barros Cassal, panfletário mas também poeta que assinava uma coluna "a ferro e o fogo" no jornal "O Dia", em que de habitual defendia o governo até que um dia, irritado com coisas que não concordou, fez um enorme e camoneano poema satírico tirando sarro do dono do jornal, Moisés Lupion, sob o titulo "O Barão de Arapoti".

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